Não estou aqui para um juízo de valor sobre a demissão de Luiz Felipe Scolari do cargo de técnico do Palmeiras. Tampouco para falar sobre as notícias que apontam a possível contratação de Mano Menezes hoje (3) pelo clube. Vamos falar de torcida. Vamos falar de Palmeiras.

Fico cada vez mais impressionado como a direção do Palmeiras (pode até entender como “corpo diretivo”, mas o sentido que coloquei é de “caminho”) bate de frente com o que a torcida deseja. Sem pretensão de querer dizer o que “a torcida” do Palmeiras quer, mas pela pura experiência de quem sabe como costuma reagir o palmeirense no estádio, nas ruas, nas redes sociais, na vida.

A torcida deseja ver um Palmeiras forte. Será que estamos vendo o Palmeiras ficar mais forte nas atitudes tomadas nos últimos tempos? Sim e não.

Sim, porque o clube se posicionou de forma correta no mercado de mídia esportiva, vendendo pela condição que achou melhor os direitos de transmissão do Brasileirão tanto na TV por assinatura (Turner) quanto para a TV aberta e PPV (Grupo Globo), topando até começar o campeonato sem acordo fechado por essas duas últimas mídias.

Sim, porque o clube voltou a ser campeão, faturou dois títulos do Brasileirão em 2016 e 2018, mandou mais uma Copa do Brasil (2015) para a coleção, e hoje briga para valer em todos os campeonatos.

Sim, porque tem patrocínio forte, arrecadação cada vez maior, sócio-torcedor consolidado e mantém boas médias de público no Allianz Parque. Sim, porque tem na Puma uma bela parceira economicamente e também em termos de marketing, já que as campanhas da marca buscam contato com o sentimento alviverde.

Sim, porque o Palmeiras deixou de ser digno de “pena”, como foi entre 2002 e 2014, período que envolveu dois rebaixamentos, inúmeros vexames em goleadas para times inferiores, negociações com jogadores de medianos para péssimos, entre tantas.

Mas é chegada a hora dos “nãos”. Eles, na verdade, se traduzem em apenas um:

Não, porque o torcedor agora é tratado como mero consumidor, fonte de dinheiro e mais nada. Não importa o que ele pensa, o que ele sente. Alguma minoria privilegiada consegue fazer pressão, impor vontades, fazer barulho. Isso dentro do clube ou nas redes sociais. Mas e o torcedor “comum”? O grosso da multidão que compõe esses milhões de seres humanos que são usados em negociações com Puma, Crefisa, Globo?

Afinal, na mesa de negociação devem aparecer os números. 16, 17, 18, 20 milhões. Cada um fala uma coisa. Mas é fato: são milhões e milhões de pessoas que só interessam quando podem pagar mensalidades elevadas no Avanti, ingressos caros no Allianz Parque, camisas de R$ 250 nas lojas, ou quando compram as brigas da diretoria nas redes sociais, pressionando os adversários da vez.

Quando a torcida precisa do clube, já era. Quando o torcedor foi dormir de cabeça quente – se é que dormiu – na semana passada após a derrota de virada – em casa – para o Grêmio, não doía apenas o fato de mais uma Libertadores ser perdida.

Há exatos dez anos, com Luxemburgo no comando, Belluzzo na presidência e a Traffic como parceira, o time também desperdiçou por mau resultado em casa a chance de jogar uma semifinal da competição continental em ano especial (ali, se completavam dez anos do título de 1999. Agora se completam 20). Doeu, mas o palmeirense seguiu, confiou, empurrou o time e se frustrou de novo. Viu o Brasileirão “mais ganho” de todos os tempos ir pelo ralo por uma péssima campanha a partir de outubro.

Quase tudo naquele Palmeiras era errado. A gastança desenfreada, a preocupação em conquistar títulos sem se preocupar com o amanhã (uma conta que ficou caríssima, se traduzindo em rebaixamento três anos depois). Todos os quesitos “sim” ditos aqui eram impensáveis.

O clube não recebia muita grana, era dependente de parceira, mal existia o conceito de vender ingresso em plano de fidelidade, os títulos recentes se resumiam a um Paulista no ano anterior, o patrocínio era sempre uma dúvida a cada ano, alternando entre marcas até o dia em que a camisa ficaria vazia na Série B de 2013. Só existiam duas coisas certas naquele Palmeiras, porém. Só duas.

1) O projeto da nova arena, que viria a se chamar Allianz Parque, com um plano que não endividaria o clube por décadas. Teria apenas o problema de ceder demais o estádio para a construtora, a WTorre. Mas quem se importava? O Verdão teria uma casa nova.

2) A paixão do torcedor, que lotava o Palestra Itália naquele ano todo, em tempos que publicar nas redes sociais era algo que a gente só podia fazer se esperasse chegar em casa, passasse as fotos por um cabo USB no computador, e subisse nos álbuns do Orkut. Por isso não há lembranças tão vivas quanto as da Era Allianz Parque, quando todos podem postar fotos em tempo real, fazer live lá dentro da arena, postar tudo. O amor de hoje é exposto. Naqueles tempos era restrito ao círculo social de cada perfil do Orkut. Ou às imensas comunidades que existiam reunindo torcedores do clube.

Hoje o Palmeiras é muito talhado nesses dois itens. Foi fundamental a reestruturação feita por Paulo Nobre a partir de 2013, bem como a chegada de Alexandre Mattos, em 2015, mudando a maneira de fazer futebol. A Crefisa como patrocinadora, então, nem se fala. Uma garantia de investimentos pesados todos os anos. Mas nunca ocupando espaço muito maior do que o dinheiro que entrava do Avanti e das bilheterias a partir da inauguração do Allianz Parque.

No entanto, as relações internas desse clube foram se transformando. O torcedor apaixonado que ia ao estádio de terno e gravata, o filho dele que começou a ir com o radinho de pilha na orelha, o neto que vestia a camisa pirata com o logotipo modificado da Rhumell, o bisneto que não deixa de postar no Instagram a foto de um só jogo no Allianz Parque, e que nem pensa antes de gastar o salário com ingressos, mensalidade do Avanti, camisas da linha completa, e ainda tem que aguentar “piada de Mundial” porque os dirigentes mais antigos não souberam defender o título de 1951 enquanto era tempo…

Toda essa linhagem foi perdendo força nos rumos do clube. Ironicamente: todas essas gerações fizeram o Palmeiras sobreviver aos anos 1980, ao Mustafá, aos rebaixamentos, às goleadas, ao péssimo acordo de TV que fez o clube ser “gado” e seguir a boiada do fim do Clube dos 13 na gestão Tirone.

Essa gente toda pode ser medida pela quantidade de dinheiro que dá ao clube? O fato de ser gente torcedora, apaixonada, “irracional” nos momentos de cabeça quente, permite ignorá-la? Existe “mais palmeirense” ou “menos palmeirense”? Vamos ter que definir torcedor de futebol como se fosse gasolina? Haveria o torcedor “comum”, o “aditivado” e até o “Podium”? Pois é o que parece.

A divisão foi sendo construída aos poucos nos últimos anos. Ingressos caros, condições quase nulas de ver um jogo pagando um preço justo sem ser sócio-torcedor, cerco da polícia na rua Palestra Itália, isolamento do elenco, contratação de medalhões em detrimento da base. Infelizmente o torcedor palmeirense, e não me excluo disso, tende a aceitar qualquer coisa que dê resultado. Mas há uma parcela mínima que conscientemente apoia essa elitização do clube. Agora, em 2019, a bomba começa a estourar no colo de todos e todas.

Felipão, semana passada, sendo "prestigiado" no Palmeiras

Crédito: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação

A demissão de Felipão deixa claras algumas coisas: o fato de o treinador ser ídolo não pesou, e ele caiu por dois meses que estragaram a temporada. Justo?  Eu acho que ele ficou sem reação nas derrotas recentes, e tudo isso ficou claro na derrota para o Flamengo, no último domingo (1), por 3 a 0 no Maracanã.

Mas, observe: será que Felipão, Paulo Turra e Carlos Pracidelli eram os únicos culpados? Será que não há ninguém acima deles com responsabilidade nas eliminações e frustrações vividas pelo Palmeiras? Será que ninguém percebe que o mesmo comportamento “bovino” nos mata-matas tem sido registrado desde 2017? Será que ninguém ligou os pontos? Que o clube vem piorando em jogos decisivos à medida em que está afastando o torcedor?

Volto a 2015. Volte comigo no tempo e na sua memória. Aquele “caco” de time que chegou ao fim da temporada perdendo jogo atrás de jogo no Brasileirão em um ano no qual todos esperavam pelo menos uma luta por G-4 na reta final da competição, lembra? Com um treinador que chegou com status de atual bicampeão brasileiro, mas jamais performou de maneira minimamente brilhante no Palmeiras, lembra?

Como o Palmeiras foi campeão da Copa do Brasil contra um Santos considerado favorito, tendo Dorival Jr. em uma de suas melhores fases no comando alvinegro, vivendo péssima fase paralela nos pontos corridos? Lembro bem de uma derrota para o Sport Recife em pleno Pacaembu na semana que antecedeu a um jogo decisivo na Copa do Brasil, a semifinal contra o Fluminense. Já apareciam os gritos de “obrigação” nas arquibancadas após o tropeço. Mas, no dia do jogo, foi só apoio.

Contra o Santos, idem. Idem, não. Muito mais. O time vinha mal das pernas, começou a colocar reservas em campo, a derrota para o Coritiba dias antes da finalíssima da Copa do Brasil tinha em campo um time que não sabíamos se era um time ou uma liquidação de Black Friday em novembro. Ou melhor, Green Friday, lógico.

Mas o título aconteceu. Racionalmente, coloque a camisa do seu time do bairro no elenco do Santos, e a camisa do time da sua empresa no elenco daquele Palmeiras. Se eles disputassem uma final no campo de futebol amador mais próximo de você, quem ganharia? Só vale considerar os jogadores. Eu não tenho a menor dúvida: se disputassem dez finais, o time que representaria o seu bairro (elenco do Santos) ganharia umas oito. Mas esse elenco não ganhou a que importava. Sabe por quê?

Porque o Allianz Parque naquele dia se tornou a arma mais mortal do Palmeiras nos últimos anos. Porque no lado de fora havia um clima inigualável de festa durante os 90 minutos e a disputa de pênaltis, porque no lado de fora havia milhares de pessoas que não puderam estar dentro do estádio, mas participaram, foram parte da festa, se sentiram parte daquela página da história alviverde, fizeram os santistas sentirem o caldeirão o tempo todo. Pressão? Só nos adversários.

O torcedor palmeirense ganhou a Copa do Brasil de 2015. Não foi o péssimo trabalho de Marcelo Oliveira, que acabou mascarado por aquela conquista, o treinador que levaria o Palmeiras a ser eliminado em plena fase de grupos da Libertadores no ano seguinte. Algo que sequer o time de Série B sem dinheiro e patrocínio na camisa em 2013 conseguiu.

O que o torcedor palmeirense ganhou em troca desde então? Uma espécie de “fiquem na de vocês, eu estou fazendo o clube ganhar títulos e faço o que bem entender para isso. Antes de nós, vocês eram meros competidores contra os rebaixamentos, então aceitem, ou vão voltar a brigar contra a Série B” que ninguém tem coragem de dizer tão diretamente.

Infelizmente muita gente caiu nesse papo. Eu gosto de separar as coisas. Como já disse no início deste texto, Mattos foi fundamental na reconstrução do Palmeiras. Acertou muito. Idem para Paulo Nobre, Galiotte, Cícero, entre vários nomes. Já elogiei muito. Mas os erros deles estão pipocando na nossa frente agora. Os acertos não conseguem mais se repetir. O clube não sabe mais ganhar mata-mata. Claro, um time que ganhasse o Brasileirão todo ano, enfileirando taças e deixando rivais cada vez mais para trás no ranking de títulos nacionais, já seria uma época gloriosa. Mas o grosso da torcida liga para o mata-mata. Quer a Libertadores, a Copa do Brasil, até o “Paulistinha”.

Afinal, quando você deixa de ganhar um título como o Paulista, alguém vai ganhar no seu lugar. A chance de ser um time pequeno é, como os times em questão, pequena. Vai ser, via de regra, um rival. E foi o Corinthians. Três vezes seguidas. Duas vezes contra times que eliminaram o Palmeiras na semifinal. A outra, contra o próprio Alviverde, em pleno Allianz Parque.

Nunca se discutiu de fato o que levou o time do Palmeiras a jogar tão mal naquela decisão. Falou-se muito na denúncia de interferência externa na marcação e “desmarcação” de um pênalti para o time alviverde que poderia ter mudado o jogo e a história. Preferiu-se chamar o campeonato de “Paulistinha” e comprar uma briga contra a FPF (Federação Paulista de Futebol) que foi tema até mais de um ano depois.

Mas lá estavam elementos que deixamos passar despercebidos. O Palmeiras venceu o Santos na semifinal em um Pacaembu cheio de santistas. Mas perdeu no jogo de volta diante de uma torcida única palmeirense que lotou o mesmo estádio. Passou nos pênaltis. Venceu o Corinthians em plena Arena, em Itaquera. Perdeu em casa jogando muito mal e caiu nos pênaltis daquele fatídico 8 de abril no Allianz Parque.

Meses depois, o time chega à semifinal da Copa do Brasil, mas cai fora porque perdeu para o Cruzeiro no Allianz Parque jogando mal. Mais uma vez, o time acabou sendo protagonista de uma decisão polêmica da arbitragem, que anulou duvidosamente um gol nos minutos finais. Mas não apaga: o time jogou mal, em casa, em um mata-mata.

2019. O Palmeiras cai fora do Paulistão para o São Paulo na semifinal. No Allianz Parque. Jogando mal. E tendo gol anulado por detalhe no impedimento do VAR. Nos pênaltis. Para um time que passou o campeonato todo sem ganhar nenhum clássico.

O Palmeiras vence o Grêmio em plena Arena, em Porto Alegre, nas quartas de final da Libertadores. Mas perde em casa, no Pacaembu, jogando muito mal e sendo eliminado pelo gol qualificado. Não teve erro de arbitragem. Mas teve todos os detalhes que foram ignorados nas frustrações anteriores. Não importa se foi no Allianz Parque (como contra Corinthians e São Paulo), ou no Pacaembu (como contra o Grêmio, e como quase foi contra o Santos em 2018 na semifinal).

O que vale é um fator fundamental em si: o torcedor não parece importar mais para o Palmeiras. Parece não fazer mais diferença fora da questão financeira. Parece não ter mais poder algum de pressionar, de mudar. Deve ter que engolir o pacote fechado que o Palmeiras oferece hoje. E pagar por ele. E ser ameaçado com o fantasma da Série B se pensar em reclamar. Uma relação abusiva.

O Palmeiras não se importa com quem mais se importa com ele: o palmeirense.

Em tempo: seja bem-vindo(a) ao novo endereço do meu blog. Como você pode reparar na barra de endereços do seu navegador, agora é allansimon.com.br. É o relançamento oficial após uma fase de testes na URL antiga. A ideia nem era começar hoje com esse texto. Ainda tenho muito o que acertar nos detalhes da nova versão. Mas as circunstâncias me obrigaram (risos). Espero que você siga curtindo o trabalho neste espaço. Um grande abraço!

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