Se o mundo do futebol viveu intensas mudanças na mídia esportiva e nos direitos de transmissão desde o início desta década, o mesmo pode-se dizer da Fórmula 1 no cenário brasileiro. Em 2026, a Globo retoma a maior categoria de automobilismo do mundo após um período de cinco anos no qual a F1 ficou exclusiva da Band na TV. Uma mudança que provocou muita gritaria e polêmica nas redes sociais entre fãs da velocidade.
O que é fato: a Band pegou a Fórmula 1 em um período no qual a categoria vivia seu pior momento na Globo. A ausência de brasileiros no grid fixo após a saída de Felipe Massa intensificou um desinteresse da emissora e do público da TV aberta, mas justamente quando a F1 começava a ganhar um novo e rejuvenescido público digital com iniciativas como a série documental ‘Drive To Survive’, parceria da categoria com a Netflix.
Nem todas as corridas eram transmitidas ao vivo, os treinos classificatórios foram minguando até virarem um boletim dentro do ‘É de Casa’ nas manhãs de sábado, até mesmo a transmissão em VT do sportv das corridas foi substituída pela reprise do que ia ao ar na TV Globo. As transmissões na TV aberta eram cortadas muitas vezes segundos após a bandeirada.
O ano era 2021. A Band assumiu as transmissões dando muito mais espaço e tempo de tela para a Fórmula 1. Conquistou os fãs com uma mistura de transmissões de treinos classificatórios, pré-corridas longos, pós-corridas também bem generosos com pódio, entrevistas e o pacote completo das etapas ao vivo, além da contratação de um time ligado à categoria e egressos da Globo.
Reginaldo Leme, principal nome da cobertura de automobilismo no Brasil, já estava na emissora, e ganhou as companhias de Sérgio Maurício, Mariana Becker, Felipe Giaffone e Max Wilson, todos eles nomes dos tempos de Globo e sportv, além de nomes importantes na retaguarda, como o produtor executivo Fred Sabino. Com uma linguagem mais solta, que incluía participações maiores de Mariana diretamente dos grids e paddocks pelo mundo nas transmissões ao vivo e nos telejornais da Band, a emissora logo caiu nas graças do público.
Porém, ao mesmo tempo, a audiência da Fórmula 1 no Brasil caiu. A Band não chega nem perto do alcance da Globo. Corridas que antes ficavam entre 8 e 10 pontos de audiência em São Paulo se viram na casa de 3 a 5 pontos. Quem não entendia a perda de espaço dos treinos classificatórios na Globo ganhou a chance de ver na própria Band a ‘magia’ acontecer: essas sessões davam metade da audiência de uma corrida na Globo, e o padrão se manteve na Band. Ou seja, mesmo com um público mais segmentado e nichado, as classificações não despertam a atenção de toda a galera que vê a Fórmula 1.
Mesmo assim, o tamanho da cobertura da Band nos primeiros anos rendeu uma renovação do contrato, que inicialmente era válido apenas para as temporadas de 2021 e 2022. Logo a primeira, inclusive, foi uma das mais emocionantes de todos os tempos, com a definição do título na última volta entre Max Verstappen, o campeão, e Lewis Hamilton, o vice. Naquele mesmo 2021, na primeira corrida em Interlagos transmitida pela Band, a equipe da emissora foi ovacionada pelo público presente no GP de São Paulo. No ano seguinte, saí o anúncio do acordo de extensão da parceria com a Liberty Media, dona da F1, até 2025.
Enquanto a relação entre Band e fãs da Fórmula 1 vivia sua lua de mel ainda nos anos seguintes do novo contrato, o clima nos bastidores com a Liberty Media já não era mais o mesmo. Rumores de crise por atrasos em pagamentos nos direitos de transmissão começaram a surgir na imprensa especializada, já que o primeiro acordo era de divisão de receitas, e o segundo passou a envolver pagamentos fixos pelos direitos.
O pior momento da Band veio em 2024, quando a emissora chegou a transmitir o GP do Canadá sem uniforme e canopla (aquele cubo com o logotipo do canal) nos microfones. Segundo informou na época o site Grande Prêmio, a ausência da marca da emissora foi por um veto da Liberty Media após o atraso de uma parcela no pagamento dos direitos.
Os rumores logo viraram notícias mais sérias de um possível rompimento do contrato. Os profissionais da Band não sabiam mais se a emissora permaneceria em 2025, ou mesmo se chegaria a terminar a temporada de 2024. Foi neste contexto que surgiram as primeiras negociações entre Liberty e Globo para o retorno da Fórmula 1 ao maior grupo de comunicação do país. E também as primeiras revoltas dos fãs.
As lembranças ainda frescas na memória do tratamento dado pela Globo à Fórmula 1 na última década de transmissões, até 2020, logo geraram um apoio em massa nas redes sociais à permanência da Band. Mas o que foi decisivo mesmo para o não rompimento do contrato foi o compromisso assumido pela emissora de pagar as parcelas e continuar transmitindo, diante da iminência de um acordo com a concorrente.
Em outubro de 2024, no auge dessa crise, a Globo chegou a apresentar um carro semelhante ao de um Fórmula 1 no Upfront, seu principal evento destinado ao mercado publicitário, acompanhado da mensagem ‘SERÁ?’ no telão, dando a entender que o retorno da F1 estava no radar e seria questão de tempo.
Com o anúncio oficial da permanência da Band, o ‘SERÁ?’ logo virou meme na internet, e até mesmo provocação no ar, com Sérgio Maurício enfatizando nas transmissões com frases do tipo ‘Fórmula 1 em 2025 SERÁ na Band’. Mas o mercado todo sabia que era apenas questão de tempo. A Liberty manteve o contrato diante de um cenário no qual teria que pagar uma multa à Band para rompê-lo antes do fim de 2025. E pacientemente aguardou.
No meio de 2025, veio o anúncio da Fórmula 1 sobre seu retorno à Globo com um contrato de exclusividade no Brasil entre as temporadas de 2026 e 2028. Foi quando houve a maior revolta dos fãs, que apontavam o fim das transmissões de treinos, pódios, entrevistas, e de 100% da temporada na TV aberta. De fato, o acordo anunciado já avisava: 15 das 24 etapas do ano na TV Globo, o campeonato completo só no sportv, em TV paga e streaming pago.
Ao longo dos meses seguintes, a Globo foi anunciando novidades que atenuaram um pouco as críticas: contratou Mariana Becker, talvez o nome mais querido pelos fãs, levou também Felipe Giaffone para o time de transmissões do sportv, garantiu até as transmissões da pré-temporada de fevereiro no canal pago, corrigiu alguns pontos que incomodavam bastante no passado, como chamar a Red Bull de ‘RBR’, prática antiga de esconder marcas e naming rights que nunca fez sentido na Fórmula 1, um campeonato essencialmente de marcas. Afinal, nunca ninguém chamou a antiga Benetton de ‘BF’.
Na Globo, as transmissões vão ganhar dois times diferentes. A TV aberta exibirá 15 corridas com Everaldo Marques na narração, Luciano Burti e Mariana Becker nos comentários, sendo que ela fará a função diretamente dos autódromos. A reportagem ficará com os correspondentes internacionais da emissora: Marcelo Courrege, Júlia Guimarães e Guilherme Pereira.
No sportv, Bruno Fonseca já estreou nas narrações durante os testes do Bahrein, e terá a companhia de Rafael Lopes, Felipe Giaffone e Christian Fittipaldi. Mariana Becker também vai participar de seis corridas no canal pago que não estiverem sendo exibidas ao vivo na TV Globo.
Ainda há pontos que vão gerar muitas críticas. Além de exibir ao vivo 15 das 24 corridas, enquanto a Band mostrava todas, a TV Globo vai deixar acontecer um hiato de mais de dois meses sem transmissões em tempo real da Fórmula 1 entre as etapas do Japão, em 29 de março, e de Mônaco, em 7 de junho. As provas que acontecem de tarde continuam só no sportv, exceção feita ao GP de São Paulo, em 8 de novembro.
A prática da Band de fazer um pré-corrida de até uma hora vai ser revivida apenas pelos assinantes do sportv. Embora este seja um ponto bastante controverso, uma vez que afiliadas da emissora não entravam em rede com São Paulo em todo esse tempo nos ‘esquentas’ das corridas. Alguns lugares tinham meia hora. Mas isso agora é passado.
O ‘fantasma’ do espaço dado pela Band à Fórmula 1, algo que era totalmente explicado pelo fato de que a categoria aumentava a média de audiência do canal em qualquer horário, enquanto na Globo o risco em determinadas faixas é de derrubar os índices, ainda vai pairar durante algum tempo nas discussões digitais.
Nos últimos meses, alguns fãs se acostumaram com a ideia, entenderam o posicionamento da Liberty de buscar a audiência e alcance da Globo, frente ao tempo de tela da Band, ou mesmo da Record, que surgiu como interessada durante as negociações no ano passado. Outros, porém, dobraram a aposta em comentários mais ácidos, agressivos, e defenderam desde boicote à F1 até ideias sem nexo, como uma possível ida dos profissionais da Band para o F1TV Pro, streaming oficial da categoria. Não deu certo. A F1TV, inclusive, vai usar em português o áudio das transmissões do sportv. E dois dos principais nomes, Mariana e Giaffone, foram para a Globo.
No fim das contas, o esforço feito pela Globo nas contratações e novidades anunciadas, que ainda podem ter mais desdobramentos até a estreia no dia 8 de março com o GP da Austrália, mostra que o canal quer pelo menos melhorar um pouco a imagem deixada ao fim da temporada 2020. E lembrar que foi pela Globo, durante mais de 40 anos, que o brasileiro se apaixonou pela Fórmula 1.
