O clássico Corinthians x Palmeiras coloca frente a frente no próximo domingo (04) os dois últimos campeões brasileiros (Palmeiras, 2018, e Corinthians, 2017). Mais que isso: os dois anteriores também (Palmeiras, 2016, e Corinthians, 2015). Os arquirrivais paulistas já protagonizaram uma disputa marcante por título do Brasileirão nos tempos do mata-mata. Foi há quase 25 anos, quando o Brasil ainda comemorava o tetracampeonato mundial conquistado nos EUA e vivia o começo do Plano Real. Esse é o tema da seção “Quanto Custava?” de hoje.

Em dezembro de 1994, Palmeiras e Corinthians deixaram todos os adversários para trás e decidiram o Campeonato Brasileiro em duas partidas realizadas no estádio do Pacaembu. O jornal Folha de S.Paulo na época relembrou que aquele acontecimento resgatava as tradições de decisões de campeonatos naquele local, já que usualmente o Morumbi vinha sendo o palco das finais que envolviam times paulistas (como foi, por exemplo, a decisão do Paulistão 1993 entre esses mesmos clubes).

O ano estava terminando após quase seis meses da nova moeda ter entrado em vigor com a missão de acabar com a hiperinflação. Portanto, aquele Corinthians x Palmeiras foi a primeira final do Brasileirão no Plano Real. Vamos relembrar agora as cifras que envolveram aqueles jogos, os públicos pagantes e os valores arrecadados pelos dois clubes, que dividiam as cotas, com a venda de ingressos.

Mais que isso: como já virou tradição, vamos corrigir os preços e mostrar quanto pesava no bolso comprar uma entrada para a decisão épica que acabou dando ao Verdão o bicampeonato consecutivo do Campeonato Brasileiro, o oitavo título de sua história na competição.

Consultando os arquivos dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, descobrimos que os ingressos para as duas finais tiveram as mesmas classificações de preços. Veja quais eram:

Arquibancadas: R$ 10
Cadeiras descobertas: R$ 15
Cadeiras cobertas: R$ 20

No primeiro jogo, segundo a Folha do dia 13 de dezembro de 1994, a PM planejou a organização das torcidas da seguinte maneira: os corintianos ficaram com as arquibancadas cinzas (onde atualmente existem as arquibancadas verdes, amarelas e as cadeiras laranjas do lado oposto ao das câmeras de TV). Os palmeirenses ficaram com o tobogã e as arquibancadas laranjas. Os setores que já tinham cadeiras na época, onde ficam as cabines de televisão e a tribuna de imprensa, não tinham divisão de torcida. Os ingressos eram vendidos para corintianos e palmeirenses.

As vendas de ingressos de arquibancada aconteciam no Parque São Jorge e no Palestra Itália. As cadeiras numeradas eram vendidas apenas no próprio Pacaembu. Foram disponibilizados 44 mil ingressos. O problema é que nem todos seriam de fato comercializados no fim das contas. Antes de conferir isso, vamos atualizar os valores.

Levando em conta a inflação acumulada no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) entre os meses de dezembro de 1994 e junho de 2019, o último divulgado pelo IBGE, os valores atualizados dos ingressos das finais do Brasileirão há 25 anos são os seguintes:

Arquibancadas: R$ 52,18
Cadeiras descobertas: R$ 78,27
Cadeiras cobertas: R$ 104,35

De acordo com o Banco de Dados da revista Placar, que contém as fichas técnicas dos jogos do Campeonato Brasileiro entre 1971 e 2002, o público e a renda da partida de ida da decisão do Brasileirão de 1994 foram os seguintes:

Público: 36.409
Renda: R$ 389.865,00

Foi notícia na Folha de S.Paulo dia 17 de dezembro que o primeiro jogo da final teve o terceiro pior público da história das decisões do Brasileiro pós-1971. Sobraram praticamente 17% dos ingressos encalhados nas bilheterias. O principal motivo: o medo gerado pelo risco de violência em clássicos dos anos 1990.

De fato, houve a morte a tiros de um torcedor do Corinthians que voltava do jogo na noite daquela partida. Tempos de horror nos estádios. Menos de um ano depois, o mesmo Pacaembu presenciaria a batalha campal entre palmeirenses e são-paulinos na final da Supercopa São Paulo de Juniores, quando um torcedor tricolor foi morto a pauladas.

Antes de prosseguirmos para o jogo de volta, vamos ao valor atualizado da renda do primeiro duelo entre Corinthians e Palmeiras no Pacaembu. Sempre de acordo com a inflação acumulada no IPCA (que é de 421,76% entre o fim de 1994 e o meio de 2019), a arrecadação total na vitória do Verdão por 3 a 1 foi de R$ 2.034.185,74.

Para o jogo de volta, a PM inverteu a lógica da primeira partida. O Palmeiras passou para as arquibancadas cinzas da ferradura e do centro do campo, enquanto o Corinthians ficou com o tobogã e as arquibancadas laranjas. Novamente as cadeiras ficaram sem divisão de torcida. Desta vez, o Morumbi, a Galeria Prestes Maia e o próprio Pacaembu se juntaram ao Parque São Jorge e Palestra Italia na venda ingressos de arquibancada. As numeradas seguiram sendo vendidas apenas no palco da final.

A Polícia Militar chegou a falar na hipótese de abrir o tobogã para a torcida do Palmeiras. Havia a expectativa de que os corintianos comparecessem em baixo número ao Pacaembu naquela segunda partida, disputada em um domingo à tarde, 18 de dezembro de 1994. Após perder por 3 a 1 na ida, o Timão tinha que vencer por três gols de diferença o elenco mais badalado do país, que vinha com o status de atual campeão brasileiro e bicampeão paulista.

Novamente, foram colocados 44 mil ingressos à disposição dos torcedores. De novo, não chegou perto de lotar. Pior: o público conseguiu ser mais baixo que na partida de ida. Além da notícia da morte de um torcedor dias antes, também havia o fator da decisão estar praticamente definida a favor do Palmeiras, e a certeza da transmissão em TV aberta do jogo por Globo e Band. No duelo anterior, a CBF só liberou o sinal para São Paulo no dia da partida.

Público: 35.217
Renda: R$ 372.325,00

Já passando a arrecadação do jogo que terminou em empate por 1 a 1 e deu ao Palmeiras o título de campeão brasileiro de 1994 para os valores atuais, a renda do clássico seria o equivalente a R$ 1.942.667,87. 

Ou seja, em dinheiro de hoje, a arrecadação total com os dois jogos foi de R$ 3.976.853,61. Esse valor já virou comum em grandes decisões no Allianz Parque e na Arena Corinthians, mas apenas com um jogo. Como havia a divisão, sem considerar descontos que sempre existem nos borderôs, cada time ficou com pouco menos de R$ 2 milhões naquela final.

Mas nem só de correção pela inflação vive a análise de valores ao longo do tempo. É preciso também considerar o poder de compra de um salário mínimo de cada época. Em dezembro de 1994, esse valor era de R$ 70. Portanto, um salário mínimo poderia comprar 6,5 ingressos médios (o tal do “ticket médio” ainda não existia nas reportagens sobre o assunto, mas seria de R$ 10,70) no jogo de ida e 6,6 ingressos no duelo de volta (a R$ 10,57). 

Já o ticket médio atualizado pelo IPCA fica em R$ 55,83. Um salário mínimo de hoje (R$ 998) compraria quase 18 ingressos a esse valor. Não fazemos a comparação com os preços de hoje por motivos muito simples: formatos diferentes (pontos corridos x mata-mata) estádios diferentes (Pacaembu x Allianz Parque e Arena Corinthians), conceitos diferentes (final em estádio municipal alugado x jogos em novas e modernas arenas próprias), e o fato de que o valor médio do ingresso do Palmeiras no Brasileirão 2019, por exemplo, que está em R$ 58, não pode ser equiparado aos preços de 1994.

Há 25 anos, qualquer cidadão poderia pagar um valor que representava quase R$ 56 de hoje na bilheteria e sair com o ingresso garantido para a decisão. Atualmente, o preço nominal das entradas é muito maior que isso. Para pagar menos, é preciso ser sócio-torcedor e pagar uma mensalidade que varia de plano para plano. Portanto, algo que foge à realidade de duas décadas e meia atrás. Não é possível estabelecer comparação entre algo que todo brasileiro poderia fazer com um preço que só está disponível a menos de 150 mil pessoas em cada clube. Da mesma forma, é incomparável o conforto de um Pacaembu de 1994 com as novas arenas de 2019.

Aliás, vale citar: a CBF, então presidida por Ricardo Teixeira, promoveu um aumento do preço de ingressos nas arquibancadas do Pacaembu para aquela final. Os valores anteriores eram de R$ 6, segundo a Folha. Corrigindo, isso seria R$ 31,31 no dinheiro de hoje. Portanto, o valor de R$ 10 já era contando o aumento causado por ser final e por ser um grande clássico.

A ideia desta série é muito mais mostrar quanto as coisas pesavam nos bolsos dos brasileiros em suas épocas do que estabelecer uma linha de comparação com os preços praticados em serviços parecidos ou similares atualmente.

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