O Palmeiras tem muitos motivos para comemorar o encerramento das negociações com o Grupo Globo. O clube anunciou nesta quinta-feira (23) o acordo com a empresa pelos direitos de transmissão do Brasileirão em TV aberta e PPV (pay-per-view) válido entre 2019 e 2024. Na nota oficial, o presidente Mauricio Galiotte disse que o Verdão teve “os pleitos atendidos a contento”, ou seja, os valores pretendidos foram alcançados.

De acordo com o jornalista Danilo Lavieri, do UOL Esporte, isso significa que o Palmeiras vai receber cerca de 12% do bolo do PPV como mínimo garantido. Isso seria o equivalente a R$ 78 milhões. Os valores com a Globo devem passar dos R$ 100 milhões, considerando também o que será arrecadado com TV aberta nos bolos de transmissão e premiação. Corinthians e Flamengo têm mínimo contratual de 18,5% do PPV: ou seja, R$ 120,2 milhões para cada.

Esses dois clubes ainda recebem do Grupo Globo por TV aberta e TV por assinatura. Nos 40% de divisão igualitária desses bolos, a dupla ganha R$ 22 milhões. O Palmeiras recebe um fixo de R$ 12 milhões pelo contrato de TV aberta, mais R$ 13,75 milhões da Turner no fixo de TV por assinatura (50% do bolo total de R$ 192,5 milhões pagos pela dona do Esporte Interativo em 2019 – o Fortaleza, a princípio, não entraria na conta, mas há uma renegociação em andamento, segundo o jornal O Povo). O Verdão tem, portanto, uma garantia de R$ 25,75 milhões só nos fixos.

Corinthians e Flamengo devem levar vantagem sobre o Palmeiras no bolo de 30% da TV aberta (R$ 180 milhões ao todo) que é distribuído pela quantidade de jogos exibidos. É tradição que ambos apareçam mais na Globo (mas, considerando apenas a praça de São Paulo, o Verdão teve mais partidas na TV aberta em 2018 do que o Timão: 13 x 10). Só que Timão e Rubro-Negro aparecem pouco no SporTV, que tem outro bolo de 30% sendo dividido por este critério, já que a Globosat tende a lançar mais jogos deles no Premiere do que em seu canal por assinatura.

Entre os times da Turner, todos têm a mesma quantidade de jogos exibidos: 12. Por isso, todos devem ganhar o mesmo valor no bolo de 25% repartido por transmissões. Isso representa mais R$ 6,87 milhões na conta do Verdão. O que vai desequilibrar a conta entre os times do Esporte Interativo é o bolo da premiação, que não sabemos ainda como será distribuído entre as posições na tabela, mas que possui mais R$ 48,12 milhões em jogo.

No fim das contas, o Palmeiras deve ficar entre 20 e 30 milhões de reais atrás de Flamengo e Corinthians em valores fixos. Mas este post não é para falar só do presente, nem só do futuro. Como você pode ver no título, vamos falar dos últimos sete anos, e do que levou o Palmeiras a postergar a negociação com a Globo até a sexta rodada do Brasileirão, permitindo que duas partidas ficassem “no escuro”, sem transmissão alguma em qualquer mídia televisiva.

Em 2011, como falamos no post Com Tirone, Palmeiras ignorou C13 e Record para fechar com Globo antes do Flamengo, o Verdão seguiu a boiada sem reclamar, participando do movimento liderado por Andrés Sanchez para tirar do Clube dos 13 a procuração de venda dos direitos de transmissão do Brasileirão. Até então, as cotas de TV eram divididas por faixas, e o Palmeiras fazia parte do grupo principal, recebendo os mesmos valores de Flamengo, Corinthians, São Paulo e Vasco. O fim desta prática abriu um rombo entre as equipes.

Com a negociação individual, Flamengo e Corinthians, donos das maiores torcidas do Brasil, ganharam muita força e passaram a ditar o ritmo da divisão de dinheiro no Brasileirão. No contrato válido entre 2009 e 2011, os cinco times citados levaram R$ 36 milhões por temporada. A partir de 2012, se formou uma “elite” corintiana e flamenguista, com ambos os clubes levando R$ 110 milhões por ano.

O São Paulo assinou por R$ 80 mi (o time demorou a assinar, pois liderava a ala que defendia o Clube dos 13). O Palmeiras fechou por R$ 70 milhões (na época, foi informado algo em torno de R$ 80 mi também, mas várias fontes, como o jornalista Cássio Zirpoli, especializado em valores e finanças, cravaram os 70 milhões). Esse valor também foi recebido pelo Vasco.

Verdão e Gigante da Colina tinham zero capacidade de pleitear condições melhores naquelas circunstâncias. A vida de ambos era lutar contra o rebaixamento (com exceção ao raro ano de 2011, no qual o Vasco foi vice-campeão brasileiro, o time caiu em 2008, 2013 e 2015. O Palmeiras caiu em 2012, e escapou por pouco em 2014).

No contrato seguinte, válido entre 2016 e 2018, Palmeiras e Vasco conseguiram pular para R$ 100 milhões por ano (esse valor, é bom lembrar, contava as três mídias – TV aberta, TV paga e PPV). Só que aí já havia uma enorme distância para Corinthians e Flamengo, que eram remunerados com R$ 170 milhões por temporada. O São Paulo passou a ganhar R$ 110 mi.

Agora, é questão de fazer conta. Corinthians e Flamengo, somando as sete temporadas de negociações individuais entre 2012 e 2018, receberam ao todo R$ 950 milhões cada. O Palmeiras, no mesmo período, levou R$ 580 milhões. Para quem recebia o mesmo valor que esses dois rivais até 2011, o Verdão viu se acumular um rombo de R$ 370 milhões entre os seus ganhos e os deles.

Voltemos ao contrato atual. Consideremos até que o Palmeiras receba R$ 30 milhões a menos que Flamengo e Corinthians no fim das contas. Seriam necessários 12 anos e 4 meses para criar o mesmo buraco que o fim do Clube dos 13 levou apenas sete para fazer. Se a diferença for de R$ 20 milhões, esse tempo sobe para 18 anos e meio. E, vá lá, que fosse considerada apenas a diferença de praticamente R$ 40 milhões existente no PPV, ainda seriam pouco mais de nove anos.

Seja qual for a conta final, o Palmeiras já venceu sua batalha para reduzir as diferenças. Fez isso usando a arma da negociação individual, que paralisou e ainda paralisa (o Athletico Paranaense não fechou com a Globo pelo PPV) o sistema de 100% de jogos transmitidos no Brasileirão, vigente desde 2005. A mesma arma que Corinthians e Flamengo usaram desde 2012 para ganhar mais dinheiro que os outros clubes.

Ainda há 17 equipes na Série A que não possuem as mesmas condições financeiras que o Palmeiras teve agora para peitar assim grandes empresas de comunicação, como a Globo. O sistema de negociação coletiva, com o Clube dos 13, tinha injustiças, é claro. Apenas os membros cotistas da associação ganhavam uma grana legal no Brasileirão. Mas a ausência de um acordo amplo e geral que envolvesse todos os clubes gerou essa discrepância absurda entre times.

Quer saber qual foi o rombo entre Corinthians e Internacional, por exemplo? Somando os sete anos entre 2012 e 2018, bateu R$ 590 milhões. E isso vale para Grêmio, Cruzeiro, Atlético-MG, Fluminense e Botafogo. Imagine para todos os outros clubes.