Há 26 anos, o Brasil vivia o embalo da conquista de uma Copa do Mundo pela primeira vez em 24 anos. Vivia também a euforia por uma nova moeda que prometia (e cumpriu) estabilizar a economia e acabar com a hiperinflação. O futebol via um Brasileirão 1994 com 24 clubes, um regulamento bastante bizarro, e praticamente todos os participantes com patrocínios na camisa.

A volta da série “Quanto Custava?” é uma viagem no tempo a 1994. O Blog do Allan Simon consultou a revista Placar especial, o popular “Guia do Brasileirão”, lançada antes do início da competição. Nela, as fichas técnicas de cada time trazia informações sobre os patrocínios com valores apurados pela redação.

O trabalho do Blog do Allan Simon neste caso foi compilar os valores 26 anos depois e atualizar para o dinheiro de hoje. Como todos os dados apresentados por Placar na época eram em dólares, fruto da economia ainda instável de um Brasil no qual fazer contratos em moeda nacional era extremamente arriscado, fizemos a conversão para o real da época (US$ 1 = R$  0,90) e, depois, a atualização monetária.

Da mesma forma que fizemos no post de fevereiro que relembrava os valores dos patrocínios do Brasileirão em 1985, há 35 anos, não usamos o IPCA do IBGE como índice de correção por não serem “preços de consumo”.

Desta vez, aplicamos o IGP-M medido pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), que desde 1989 é usado em ajustes contratuais, como os acordos da Globo com o Clube dos 13, e posteriormente, individualmente com clubes. Todos prontos? Comecemos a viagem. Os meses de referência são agosto de 1994, na partida, e maio de 2020, na chegada.

– Flamengo tinha o maior patrocínio do Brasileirão 1994

De acordo com as informações da revista Placar, o Flamengo recebia US$ 1,5 milhão por ano da Petrobrás. Era o maior entre todos os patrocínios do futebol brasileiro. Isso já havia sido destacado pelo Blog do Allan Simon no post sobre 1985. Na ocasião, a correção apontou valor de pouco mais de R$ 12 milhões ano para o Rubro-Negro.

No caso de 1994, foi bem parecido. Esse valor de 1,5 milhão de dólares em real da época era equivalente a R$ 1,35 milhão. Convertido para a moeda de hoje com o IGP-M de quase 711% acumulado nesses 26 anos, o valor é de R$ 10,9 milhões pelo contrato anual entre Flamengo e Petrobrás.

– São Paulo ganhava mais que o dobro pela camisa que o Palmeiras da Parmalat

O São Paulo era o segundo time com maior patrocínio de camisa no Brasil. Campeão da Libertadores e do Mundial duas vezes em 1992 e 1993, o Tricolor do Morumbi recebia da companhia aérea TAM (atual Latam), segundo a Placar, uma verba anual de US$ 1,32 milhão. Isso era equivalente a R$ 1,188 milhão na época.

Já o Palmeiras, atual campeão brasileiro, bi do Paulista e que estava rumo ao bi nacional também naquela temporada, recebia menos da pomposa parceria com a Parmalat. Pelo menos no que se refere a camisa. Placar destaca que a multinacional italiana pagava ao Verdão a quantia de US$ 600 mil por ano (R$ 540 mil em 1994) pela marca estampada no uniforme. Mas aí vem o “x” da questão: “Fora as contratações”. 

Ou seja, o Palmeiras provavelmente tinha um patrocínio muito maior em relação ao futebol brasileiro, mas a maior parte desse valor entrava no acordo de cogestão com a Parmalat, e não pela estampa da marca de leite na camisa.

Trazendo os valores dos uniformes para hoje, o São Paulo tinha com a TAM um acordo de R$ 9,6 milhões por ano. O Palmeiras ganhava da Parmalat uma verba anual de quase R$ 4,4 milhões quando ganhou o Brasileirão 1994.

– Corinthians tinha bom acordo com a Kalunga

Segundo a Placar, o Corinthians recebia da rede de papelarias uma verba de US$ 720 mil por ano. O contrato acabaria em novembro de 1994, então não era possível saber quanto a empresa pagaria pela extensão que certamente foi necessária para a final do campeonato, quando o Timão acabou perdendo o título para o Palmeiras no Pacaembu, já nos últimos dias do ano.

Na época, o valor era de R$ 648 mil. Convertendo para o dinheiro de hoje pelo IGP-M, a verba corintiana era de R$ 5,2 milhões. Mais que o Palmeiras (pela camisa), mas menos que o São Paulo.

Na reportagem sobre 1985, nove anos antes, o Corinthians recebia cerca de R$ 2,9 milhões por ano da mesma marca em valores atualizados pelo IGP-DI entre fevereiro de 1985 e janeiro de 2020.

– Times da Coca-Cola recebiam mesmo valor… ou pelo menos a maioria

Sete anos depois de patrocinar a Copa União e colocar sua marca em quase todas as camisas dos times que disputaram a competição organizada pelo Clube dos 13, a Coca-Cola ainda era a empresa que mais aparecia nos uniformes no Brasileirão 1994.  Dez clubes. Quase metade do total de participantes da Série A.

Quase todos recebiam a mesma verba, eram US$ 200 mil por ano pagos pela empresa americana de refrigerantes. Mas havia exceções, pelo menos de acordo com o apurado pela Placar. Para mais, e para menos.

Começamos pelo valor médio. Ganhavam os US$ 200 mil por ano: Grêmio, Atlético-MG, Botafogo, Bahia, Cruzeiro, Fluminense e Náutico. Essa quantia era de R$ 180 mil em agosto de 1994. O valor atualizado em 2020 é de quase R$ 1,5 milhão anual.

Dois times ganhavam abaixo disso, de acordo com a revista. O Internacional tinha contrato de US$ 180 mil, valor menor que o rival, Grêmio. Isso dava R$ 162 mil por ano na época, R$ 1,3 milhão de hoje.

O Sport Recife ganhava ainda menos. Eram apenas US$ 75 mil por temporada (R$ 67,5 mil). Valor que só não era menor que os patrocínios de Remo e Paysandu na Série A. O time de Pernambuco recebia R$ 547,4 mil por ano em dinheiro de hoje.

A exceção para cima era o Vasco da Gama. O time da Colina ganhava US$ 350 mil por ano da Coca-Cola, ou seja, R$ 315 mil em dinheiro de 1994, o equivalente a R$ 2,5 milhões de hoje.

– União São João tinha patrocínio gigante no Brasileirão 1994

Conhecido por revelar jogadores como o lateral Roberto Carlos, o União São João de Araras hoje não existe mais no futebol profissional, mas foi um exemplo no Brasil de 1994 como clube organizado. E isso se refletiu no patrocínio da camisa.

O time alviverde levava a marca do Iogurte Bliss, da Nestlé, e embolsava US$ 500 mil por ano. Valor maior que o individualmente pago pela Coca-Cola a qualquer de seus patrocinados, clubes grandes do futebol brasileiro, e que chegava mais perto que eles do valor de camisa do Palmeiras e do Corinthians.

Os R$ 450 mil embolsados anualmente pelo União São João em 1994 equivaleriam hoje, pelo IGP-M, a R$ 3,6 milhões.

– Criciúma também fazia bonito

Campeão da Copa do Brasil de 1991, o time catarinense ainda figurava com frequência na elite do futebol brasileiro naquela época. O Criciúma recebia da Eliane, indústria de pisos e azulejos, uma quantia de US$ 260 mil por ano (R$ 234 mil na época).

Em dinheiro de hoje, isso daria quase R$ 1,9 milhão. Mais que nove dos dez patrocinados pela Coca-Cola na mesma competição, de acordo com dados da Placar.

– Times do Pará ganhavam menos

Embora tivessem patrocinadores diferentes, Remo (Tintas Renner) e Paysandu (Farmácia Big Ben) recebiam o mesmo valor pela estampa na camisa em 1994. Segundo a revista, a verba de cada um deles ficava em US$ 72 mil por ano. O valor de R$ 64,8 mil da época daria R$ 525,5 mil anuais em 2020.

– Santos e Lusa não divulgaram valores

Placar não conseguiu estipular os ganhos de Santos e Portuguesa com Lousano e Tintas Renner, respectivamente, no Brasileirão 1994. A patrocinadora do Peixe ficaria mais famosa anos depois ao dar nome ao Paulista de Jundiaí, que se chamou Lousano Paulista no fim da década de 1990 antes de ser comprado pela Parmalat e virar Etti Jundiaí.

– Dois times ainda negociavam patrocínios para o Brasileirão 1994

De acordo com a revista, Bragantino e Paraná Clube estavam em negociação com marcas para estampar suas camisas naquela competição, e, por isso, não entraram na lista de valores.

Recado final: o Blog do Allan Simon está de volta após uma pausa forçada por causa das coberturas na pandemia do novo coronavírus. Em breve teremos novidades. Muito obrigado a todos os que deram seu apoio na nossa primeira fase, desde maio de 2019. Seguiremos!

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