A Supercopa do Brasil foi lançada oficialmente hoje em um evento da CBF com as presenças de jogadores e os técnicos do Flamengo e do Athletico Parananense, os campeões do Brasileiro e da Copa do Brasil de 2019 que vão se enfrentar pelo primeiro troféu nacional da nova temporada.

Mas não se trata de uma competição inédita. No começo da gestão de Ricardo Teixeira como presidente da CBF, nos anos 1990, a entidade tentou implantar a Supercopa no calendário. A Copa do Brasil tinha sido criada em 1989, e os dirigentes achavam que fazia sentido organizar um campeonato extra que colocasse frente a frente o seu campeão com o vencedor do Brasileirão. Será mesmo que fazia?

Na verdade, não. Naquela época, o Brasil tinha apenas duas vagas na Libertadores. A partir da criação da copa nacional, um desses lugares passou a ser entregue ao seu vencedor (antes, era do vice brasileiro). A Conmebol organizava os grupos da competição continental de um jeito que sempre colocava dois times do mesmo país em uma chave contra dois times de um outro mesmo país. Ou seja, todos os anos já haveria o duelo entre campeão brasileiro e da Copa do Brasil.

E foi exatamente isso que aconteceu com a primeira Supercopa do Brasil, em 1990. Vasco, campeão brasileiro de 1989 ao bater o São Paulo na final em pleno Morumbi, e Grêmio, vencedor da primeira Copa do Brasil ao superar o Sport Recife na decisão, ficaram sem datas para a disputa do novo torneio. Resultado: a CBF teve que mudar seus planos e considerar os resultados dos confrontos entre ambos na fase de grupos da Libertadores como a Supercopa.

Com isso, a vitória do Grêmio em casa sobre o Vasco na partida de abertura do Grupo 5 da Libertadores-1990  por 2 a 0 deu ao time gaúcho uma boa vantagem no dia 14 de março daquele ano. O duelo de volta aconteceu apenas em 18 de abril, até porque teriam que esperar novo cruzamento entre os times na tabela da competição continental.

Segundo o jornal “O Globo” daquele dia, o combinado pela CBF era que o Grêmio seria campeão em caso de empate ou derrota por um gol de diferença, e que o Vasco ficaria com a taça se vencesse por três ou mais. O bizarro é que uma vitória vascaína por 2 a 0, por exemplo, faria com que o título nacional fosse decidido por sorteio, já que não era possível “enfiar” uma disputa de pênaltis em um jogo regular de primeira fase de torneio organizado por outra entidade. Era anunciada a transmissão pela TV Manchete.

O empate em 0 a 0 acabou dando ao Grêmio mais um título nacional, a primeira Supercopa do Brasil. Mas não que o resultado fosse motivo para comemoração. No fim das contas, acabou complicando a equipe gaúcha na Libertadores. O Tricolor encerrou a fase de grupo apenas com a vitória sobre o Vasco na abertura. Foram três empates e duas derrotas. Último lugar na chave. O Vasco ficou sem o título nacional, mas avançou de fase até ser eliminado pelo Atlético Nacional nas quartas de final.

Em 1991, a CBF conseguiu uma data: 27 de janeiro. Os campeões nacionais eram nada menos que os times de maior torcida do país. O Flamengo venceu a Copa do Brasil de 1990 ao superar o Goiás na final. O Corinthians foi mais que chegou como campeão brasileiro após vencer o São Paulo na decisão. Mas a Supercopa do Brasil foi um fracasso, o suficiente para nunca mais – até hoje – ser realizada.

Para começar: apesar de ter sido mais organizada, ter os direitos de transmissão vendidos para a Band, e opor os times mais populares do país, a Supercopa do Brasil sequer foi o principal assunto do próprio Corinthians naquele dia. Também no dia 27 de janeiro de 1991 foi realizada a eleição presidencial corintiana. Os candidatos eram: Marlene Matheus, Antoine Gebran, Damião Garcia, José Borbolla, e Edgard Soares.

Na capa da Folha de S.Paulo do dia 27, em vez de uma chamada para o jogo, o destaque esportivo era “Corinthians vai escolher hoje o seu novo presidente”. Enorme, na mesma página, era uma propaganda paga pela candidatura de Damião Garcia, conhecido por ser fundador da Kalunga, patrocinadora do clube por anos.

A bagunça da Supercopa do Brasil não parava por aí. Segundo a reportagem do jornal, o Corinthians não sabia na véspera nada sobre as regras da competição, critérios de desempate, etc. “Só tomaremos conhecimento na hora do jogo através do representante da CBF”, declarou Adilson Toledo, então administrador do futebol corintiano.

Dentro de campo, a Supercopa do Brasil 1991 juntava os dois treinadores que tinham sido sensações no ano anterior em times pequenos. Vanderlei Luxemburgo, que comandava o Flamengo, tinha sido campeão paulista com o Bragantino. No lado corintiano, Nelsinho Baptista, que faturou o Brasileirão no fim do ano pelo time alvinegro, era justamente o treinador do Novorizontino na Final Caipira perdida para o Braga de Luxa.

Atrativos, como podemos ver, não faltavam. Mas não deu certo. O público total no Morumbi foi de 2.706 pessoas. A renda: Cr$ 2.885.000,00.

Em um rápido crossover com a seção “Quanto Custava?”, podemos constatar que esse valor convertido em reais e atualizado com a inflação usando o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) medido pelo IBGE é de R$ 100.423,15 em dinheiro de hoje.

O ticket médio em valores atuais, portanto, foi de R$ 37,11. Para a época, foi de Cr$ 1.066,15. Com o salário mínimo nacional a Cr$ 12.325,60, podemos dizer que o ingresso em média custou 8,64% dele.

No dia seguinte, a Folha de S.Paulo definiu o jogo como “morno”, e ele acabou relegado à página 3 do caderno de Esportes. A capa foi para a vitória de Marlene Matheus na eleição para presidente. A primeira-dama que sucedia o marido no cargo recebeu 2.119 votos, contra 1.250 de Gebran, 1.073 de Garcia, 918 de Borbolla e 311 de Soares.

O comparecimento total na votação foi de 5.318 associados e quase chegou ao dobro de torcedores presentes no Morumbi. Mas também decepcionou: eram 37 mil com direito a voto, e a expectativa era de que 8 mil votassem naquele dia.

Em campo, o Corinthians venceu o Flamengo com um gol de Neto, herói também da conquista do Brasileirão de 1990 ao ter papel fundamental em toda a campanha. Veja o jogo completo com a narração de Marco Antônio Matos na Bandeirantes:

Se preferir ver apenas o gol da conquista, veja no vídeo abaixo:

Não havia notícia na época sobre premiação. O destaque era para o fato de que o título da Supercopa rendeu ao Corinthians a posição de “Brasil 1” na Libertadores. O torneio nunca mais foi disputado e está de volta com o Flamengo x Athletico Paranaense do próximo dia 16 em Brasília.

No próximo post, vamos ver como seria a Supercopa do Brasil se tivesse sido disputada sempre como foi em 1990, usando os confrontos entre campeões da Copa do Brasil e do Brasileirão na Libertadores até 1999, quando a competição continental mudou seu formato e acabou com os grupos fixos com dois países.

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