A história pode parecer bizarra para quem vive uma era na qual os três principais canais esportivos do Brasil são SporTV (da Globo), ESPN e Fox Sports, mas aconteceu há quase 20 anos. Em outubro de 2000, a Globosat anunciou ao mercado que estava comprando 25% das ações da concorrente ESPN Brasil. E mais: divulgou ainda que lançaria nos meses seguintes um canal chamado “ESPN Fox Sports”. A ideia não vingou, como podemos bem saber, mas existiu e foi notícia até nos jornais do próprio Grupo Globo na época.

O primeiro registro encontrado pelo Blog do Allan Simon na internet é do site do jornal Folha de S.Paulo, na época chamado “Folha Online”. Publicada no fim da noite do dia 18 de outubro de 2000, a reportagem tinha o seguinte título: “Globo vira sócia da ESPN Brasil e amplia domínio na TV paga”.

O anúncio oficial do negócio foi feito hoje, simultaneamente com o lançamento do ESPN Fox Sports, parceria entre a ESPN, a Fox Sports e a Globosat. O novo canal, que será produzido no Brasil e substituirá a ESPN International no primeiro quadrimestre de 2001, estará na NET e na TVA – foi investido inicialmente no canal US$ 40 milhões.

Folha de S.Paulo – Versão digital – 18/10/2000

A reportagem da Folha indicava o cenário mais claro: a negociação faria a Globo “ampliar significativamente seu monopólio na área de esportes na televisão brasileira”. E trazia declarações dos envolvidos rebatendo esse viés crítico.

“Não dá para falar que temos o controle de tudo agora. Tem a PSN, um concorrente com fôlego”, afirmou à epoca Alberto Pecegueiro, então diretor-geral da Globosat. Se hoje a sigla é sinônimo da rede online de jogos do PlayStation, na época “PSN” era um canal que entrava forte no mercado brasileiro com os direitos exclusivos da Libertadores na TV paga.

Mostrava diversas outras competições do continente, como a Copa Mercosul e a Copa Merconorte, além de outros campeonatos nacionais da América do Sul e da Europa. Teve até programa quinzenal apresentado por Pelé. Pertencia ao fundo HTMF, a famosa “Hicks Muse” que foi parceira do Corinthians na mesma época.

Pecegueiro explicava que nada mudaria na relação entre SporTV e ESPN Brasil, de quem a Globo adquiria 25% das ações, mas não mexeria na programação. Segundo o diretor, o canal da Globosat seguiria investindo em competições fortes, enquanto a ESPN focaria em programas de jornalismo, mesas-redondas e outros esportes que tinham menos espaço na mídia.

“Não devemos e não queremos competir. Devemos evitar a superposição nas programações dos canais”, disse o diretor da Globosat à Folha.

No dia seguinte, 19 de outubro de 2000, era a vez do jornal O Globo, pertencente ao mesmo grupo empresarial, noticiar a movimentação. Sob o título “Globosat investe em programação esportiva”, a reportagem anunciava que o investimento para a criação do “ESPN Fox Sports” seria de 40 milhões de dólares. Com a cotação a R$ 1,87 naquele dia, o valor era, portanto, de R$ 74,8 milhões. Com correção monetária pelo IPCA, seria algo atualmente em torno de R$ 239 milhões.

Entre as especificações do negócio, a matéria de O Globo dizia que o início aconteceria em “meados de 2001”, citando que “o canal terá como foco eventos esportivos, incluindo os internacionais, como os jogos de basquete da NBA, os famosos Masters de Golfe de Augusta e o Aberto de Tênis da França de Roland Garros”, além de prometer que a programação teria locutores brasileiros. O “ESPN Fox Sports” substituiria o “ESPN International”, que anos mais tarde viraria apenas “ESPN” sob comando da Disney.

O então recém-criado jornal “Valor Econômico”, que era uma parceria dos grupos Globo e Folha, e hoje pertence apenas aos globais, chamou a atenção para outro fator na edição do mesmo dia, que pudemos consultar por meio do acervo “TV-Pesquisa”, da PUC-Rio. “Caso ESPN Brasil não é notificado” era o título da reportagem, que apontava que não havia sido feita nenhuma comunicação do negócio à Anatel.

De acordo com o artigo 7º , parágrafo 2º da Lei Geral das Telecomunicações, qualquer negociação que possa incorrer na concentração econômica entre prestadores de serviços na área de telecomunicações deve ser instruído pelo órgão regulador. Caso haja risco de cartelização, o processo é encaminhado para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) do Ministério da Justiça.

Valor Econômico – 19/10/2000

A Globosat respondeu ao Valor dizendo que tomaria “as providências jurídicas necessárias para notificar as entidades governamentais sobre a legitimidade do negócio”, e que ” a partir do momento em que os contratos transmissão forem renovados, a administração da área comercial e de publicidade do ESPN Brasil será repassada à Globosat”.

Em novembro, a revista especializada “Pay TV” trouxe uma reportagem que também apontava o possível monopólio global com a chamada “Globosat fica sem adversários em campo”, cujo subtítulo era: “Programadora garante supremacia no cenário esportivo ao comprar parte da ESPN Brasil e associar-se às marcas ESPN International e Fox Sports num novo canal, que já nasce líder em distribuição.”

O negócio era visto como uma resposta da Globo a dois rivais de fora. “Os inimigos oficialmente declarados são a PSN e a DirecTV, ligadas a grupos de forte atuação pan-regional”.

A Globosat tem agora nas mãos três canais esportivos – SporTV, ESPN Fox Sports e ESPN Brasil – para negociar no apetitoso mercado publicitário nacional, além dos seus canais Première para as ofertas em pay-per-view, e dos breaks locais da PSN (que também negocia).

Pay TV – Novembro de 2000

Sobre o canal “ESPN Fox Sports”, a revista indicava que aquela era uma evolução do projeto de entrada da Fox na área de esportes no Brasil, que desde 1997 era vista como algo que aconteceria por meio da Globosat. De fato, o SporTV fez parceria com o Fox Sports durante algumas transmissões de competições sul-americanas, como a Copa Mercosul de 1999.

ESPN Fox Sports é o novo canal que substitui a atual ESPN International no primeiro semestre do ano que vem. Trata-se de uma sociedade de um terço cada um entre as duas programadoras internacionais e a Globosat para a formação de um canal feito no Brasil – a sede será no Rio de Janeiro – com programação internacional. Num investimento conjunto de US$ 40 milhões, as três programadoras tiveram suas próprias razões para se unir sob uma marca mista.A Fox Sports já tinha decidido desde 96 que sua porta de entrada no Brasil seria via Globosat.

Pay TV – Novembro de 2000

Willy Burkhardt, então vice-presidente executivo da ESPN International, explicou à PayTV por que os canais toparam unir a marca com a de uma concorrente, no caso o Fox Sports. “Esporte é um tipo de indústria onde se deve aliar-se a parceiros fortes para permanecer forte”, disse ele, que seguiu a mesma linha ao falar da venda dos 25% da ESPN Brasil à Globosat.  “Foi a forma que encontramos de fortalecer nossa presença local. Temos um compromisso com o Brasil e sentimos que poderíamos ser fortalecidos”.

Então presidente e CEO da PSN, Jacques Kremer também foi entrevistado pela revista para dar sua posição sobre a movimentação das rivais. “Estes acordos não se fazem do dia para a noite. A Fox Sports já há tempos prepara sua entrada no mercado brasileiro. Agora que se juntou à ESPN, temos um concorrente a menos”.

No meio disso tudo, ainda havia o fato de que o SporTV não era negociado fora do sistema Net/Sky, e que as concorrentes tinham como principal força esportiva para atrair assinantes a marca da ESPN Brasil, que, por sua vez, via seu crescimento de base de assinantes limitado por não ser vendido nas operadoras que eram controladas pela Globo na época.

Em março de 2001, no dia 7, o jornal Valor Econômico mencionou novamente o tema para destacar o anúncio de Michael B. Fox, vice-presidente comercial da divisão internacional da ESPN, de que a Globosat passava a ser a nova representante comercial da ESPN Brasil. Outra vez era citado que seria lançado em breve o “ESPN Fox Sports” para substituir o serviço ESPN International.

No dia 19 de março de 2001, o Jornal do Brasil publicava uma nota sobre a atuação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) no caso.

A Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), responsável por fornecer parecer técnico ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), está analisando dois processos da Globosat na área esportiva. O primeiro diz respeito à compra de 20% da ESPN Brasil – que em abril estréia o Programa Social Clube, apresentado pela ex-VJ Soninha – pela programadora. O segundo é sobre a associação da Globosat à ESPN International e à Fox para a criação da ESPN Fox Sports, novo canal que deve entrar no ar ainda este ano. A Seae quer averiguar se a participação da Globosat nos dois negócios fará com que os canais se tornem exclusivos da Net, o que poderia caracterizar um oligopólio da operadora. Caso a secretaria avalie que há concentração do mercado nas mãos da Net, pode aconselhar o Cade a tomar medidas contra as negociações. O relatório da Seae fica pronto no segundo semestre de 2001.

Jornal do Brasil – 19/03/2001

No mês de abril de 2001, a revista Pay TV voltou ao tema com uma nova reportagem especial que trazia a informação de que o lançamento do “ESPN Fox Sports” tinha ficado para o segundo semestre. Burkhardt, da ESPN, disse que o novo canal não seria negociado com base em exclusividade de operadora. “Não dá para pensar num canal exclusivo se você não é dono do sistema de distribuição. Portanto, pretendemos estar no maior número de operações possível”, disse o VP executivo.

A data de lançamento era prevista para julho, “mas não será surpresa se isso só acontecer em setembro”, segundo o veículo. A matéria citava que a ESPN Brasil tinha aumentado sua base de assinantes com a entrada na Net/Sky em mais que o dobro, já projetando uma sucursal no Rio de Janeiro.

A partir daí, o assunto começou a minguar. No meio daquele ano, a Disney comprou uma empresa da Fox por US$ 5,3 bilhões nos Estados Unidos, mas as notícias não indicavam relação com os negócios esportivos que estavam sendo feitos no Brasil, até porque o canal afetado por aqui era o Fox Kids, que virou Jetix e, depois, Disney  XD.

Além disso, a Folha de S.Paulo noticiou no dia 4 de julho que 45 empresas de TV por assinatura entraram com processo na SDE (Secretaria do Direito Econômico) do Ministério da Justiça para contestar a compra das ações da ESPN por parte da Globo, além de protestar contra a exclusividade do SporTV na Net/Sky.

Em 16 de outubro, foi a vez do Estadão noticiar que a operadora TVA, apesar de também ser investigada, apoiava um processo no Cade que apurava possível abuso de poder econômico e formação de cartel no setor, além de pedir o fim da exclusividade de canais em operadoras (o que só aconteceria em 2008, quando o SporTV e demais canais da Globosat finalmente entrariam no catálogo da TVA).

Um dia depois, o Tela Viva publicava nota afirmando que eram grandes as chances de haver problemas na aprovação da fusão entre Globosat e ESPN Brasil, bem como da joint-venture para a criação do “ESPN Fox Sports”. Apesar de dizer que o parecer deveria sair em semanas, o caso se arrastou e foi tema de nova notícia no mesmo site em 2004.

Em dezembro de 2001, a Pay TV ainda destacava que a briga entre SporTV e ESPN Brasil no ranking de audiência estava forte, com o primeiro liderando em alcance, mas o segundo levando a melhor em tempo de permanência do espectador no canal. Em 2002, no mês de janeiro, a notícia era de que a ESPN Brasil passava a ter uma equipe comercial própria, não sendo mais representada pela Globosat. Quatro anos depois, em 2006, a Globosat comunicava que “não é proprietária, tampouco gestora, do canal” ESPN Brasil, segundo a Folha, encerrando essa história.

Fox Sports virou rival da Globo

Em fevereiro de 2002, a situação ficou dramática para os fãs da Libertadores. A PSN, afetada pela crise econômica que tomou conta da América Latina naquela época, quebrou após apenas dois anos no ar. Os direitos de transmissão de seus campeonatos foram repassados para o Fox Sports.

O problema: a Fox não tinha canal no Brasil. Com isso, a competição continental, que naquele ano tinha Flamengo, Grêmio, Athletico Paranaense e São Caetano como nossos representantes, ficaria fora da TV paga, e os torcedores dessas equipes dependeriam da programação da Globo aberta. Além disso, o contrato de 2000 inviabilizava a entrada do Fox Sports no país de forma independente, ficando atrelado ao acordo com Globosat e ESPN que nunca saiu do papel.

No ano seguinte, o canal Fox, de filmes e séries, chegou a exibir futebol com alguns dos torneios do espólio da PSN. Veja abaixo uma chamada de Boca x Paysandu na Libertadores 2003:

Até 2011, vários direitos de transmissão que agora eram do Fox Sports foram vendidos a outras emissoras no Brasil, sobretudo o SporTV, que chegou a dividir a Libertadores com o BandSports. Em 2012, a Fox finalmente conseguiu entrar no mercado nacional lançando seus canais próprios de esporte.

Mesmo com dificuldades para inserir as programações nas grades das operadoras no começo, a empresa bateu o pé e usou sua exclusividade na competição continental logo no primeiro ano, exibindo algumas partidas também no canal FX. Teve a sorte de exibir justamente a competição vencida pelo segundo time de maior torcida do Brasil, o Corinthians, exatamente o clube que era parceiro da HTMF da falida PSN.

Quis o destino que ESPN e Fox Sports voltassem a se cruzar após o anúncio da venda de uma parte bem maior da Fox nos EUA para a Disney, que desta vez incluindo os canais brasileiros do grupo, gerando rumores sobre uma fusão que não foi aprovada pelo Cade, mas pode voltar a ser vista como opção após ninguém ter conseguido comprar os canais esportivos da Disney até agora.

O curioso é que nem nesse caso de uma fusão clara entre ESPN e Fox, que provavelmente acabaria com a marca “Fox Sports” no Brasil, daria origem a um canal chamado “ESPN Fox Sports”, como seria o projeto jamais realizado com a Globosat.

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