O Brasil está garantido na final da Copa América de 2019 após a vitória sobre a Argentina na última terça-feira (2) por 2 a 0, no Mineirão, e agora aguarda o vencedor de Chile x Peru, partida a ser realizada nesta quarta (3) na Arena do Grêmio, para saber quem vai tentar impedir a seleção brasileira de repetir o feito de 1989, quando o time foi campeão continental pela última vez como país-sede da competição. E é voltando 30 anos que faremos nossa viagem no tempo de hoje.

Na Copa América de 1989 tudo era diferente no formato da competição. Não havia convidados, então participavam apenas os 10 países filiados à Conmebol. Eles eram divididos em dois grupos com cinco times cada, e os dois melhores de cada chave avançavam para um quadrangular final. Ou seja, não existia exatamente uma “final” da competição. Mas o destino tratou de fazer uma decisão por conta própria. Por isso, vamos considerar o Brasil 1 x 0 Uruguai do dia 16 de julho de 1989 como uma final de Copa América.

Não faltam motivos para isso. A decisão entre brasileiros e uruguaios na Copa do Mundo de 1950, disputada no mesmo estádio, é considerada como uma final de Copa no imaginário popular desses países. É porque a situação era exatamente a mesma: as duas equipes chegaram ao final do quadrangular sendo as únicas com chances de título. Quem ganhasse seria o campeão. Portanto, era uma final.

A comparação nos 30 anos que separam a final de 1989 com a grande decisão do próximo domingo (7) fica ainda melhor porque o estádio é o mesmo. Quer dizer, pelo menos a localização e o terreno, já que o Maracanã foi profundamente modificado para sediar outro Mundial, o de 2014. Recorremos ao acervo online do jornal O Globo para buscar informações sobre os ingressos de Brasil x Uruguai há 30 anos no Rio de Janeiro.

Causa surpresa atualmente ver como a comercialização era feita. A reportagem de O Globo no próprio dia da decisão, um domingo, informa que haveria a venda de ingressos nas bilheterias do Maracanã a partir das 10h (o jogo era de tarde). No caso dos camarotes, o torcedor mais endinheirado poderia comprar também na loja da CBF, na sede antiga da entidade, na Rua da Alfândega, no Centro.

Os valores: geral a NCZ$ 3, arquibancada a NCZ$ 10, cadeira azul a NCZ$ 20, cadeira especial a NCZ$ 70, e os tais camarotes a NCZ$ 100. Esse símbolo maluco “NCZ$” era o que designava o “cruzado novo”, moeda implantada em janeiro de 1989 pelo governo do presidente José Sarney e fazia parte do Plano Verão, outra tentativa frustrada de contenção da inflação que o Brasil vivia naquela época.

Esse dinheiro entrou para “cortar três zeros” no antigo cruzado. Ou seja, a cada mil cruzados, 1 cruzado novo. A moeda durou até a posse do presidente eleito Fernando Collor, em março de 1990, quando o cruzeiro voltou a ser o dinheiro nacional (e a inflação seguiria aterrorizando o Brasil por mais quatro anos, até a implantação do Plano Real).

Posto isso, chegou a hora de atualizar esses valores. Como sempre fazemos nesta série, vamos usar o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerando a inflação oficial medida pelo IBGE entre os meses de julho de 1989 e maio de 2019, última medição fechada e divulgada até agora pelo instituto.

(Só para você saber: a inflação acumulada nesses 30 anos foi de 1.187.285.321,303950%. Isso mesmo, mais de um bilhão por cento. Mas não vai parecer tanto assim na conversão para o real, visto que houve outras moedas e fatores econômicos ao longo desse período)

O ingresso mais barato, da antiga geral do Maracanã, que deixou de existir em reformas ainda anteriores às realizadas para a Copa de 2014, custava 3 cruzados novos. Atualizando, esse valor era equivalente a R$ 12,95. Passando para as arquibancadas, que saíam por 10 cruzados novos, o ingresso sairia atualmente por R$ 43,17. No caso das cadeiras azuis, cujo preço era de 20 cruzados novos, a entrada agora custaria R$ 86,35. As cadeiras especiais, que valiam 70 cruzados novos, custavam R$ 302,22 no dinheiro de hoje. E os famigerados camarotes, que custavam 100 cruzados novos, são equivalentes a R$ 431,74 em 2019.

Resumindo: o ingresso mais barato custava praticamente R$ 13, e o mais caro saía por quase R$ 432. Sem contar meia-entrada e outros benefícios, o ingresso mais barato para Brasil x Chile/Peru no próximo domingo custava R$ 260. O mais caro, R$ 890. E vai lotar.

Como já aprendemos nessa série, precisamos, no entanto, estudar também o impacto do valor dos ingressos no bolso do trabalhador em 1989. A inflação era tanta, que o salário mínimo era atualizado mensalmente pelo governo. Em julho daquele ano, o valor era de NCZ$ 149,80. 

Ou seja, o ingresso mais caro, o camarote (NCZ$ 100), custava 66,75% de um salário mínimo. O mais barato, para ver o jogo na geral do Maracanã (NCZ$ 3), era apenas 2% do mínimo. A arquibancada, um setor ainda bem comum (NCZ$ 10), saía por 6,67% do salário mínimo.

Em 2019, o ingresso mais barato para a final da Copa América (R$ 260) custa 26% do salário mínimo em vigor desde janeiro no país (R$ 998). Mesmo que se considere a meia-entrada (R$ 130), são 13%. A categoria mais cara (R$ 890) chega a 89,1% do valor de um salário mínimo em um país de 13 milhões de desempregados. Em valores percentuais, mais de 30 pontos acima do peso no bolso de um camarote há 30 anos.

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Ilustração: Allan Simon/Foto: Reprodução/TV Globo