O segundo post da série “Quanto Custava?” traz um assunto que foi bastante discutido nos últimos tempos: PPV (pay-per-view) do Brasileirão. A competição de 2019 está sendo a primeira desde 2005 a não ter todos os jogos transmitidos pelo Premiere, canal do Grupo Globo que opera esse tipo de sistema há 22 anos na maior competição do futebol nacional. Vamos viajar no tempo até 1997 para saber como funcionava a implantação desse esquema de exibição dos jogos do Campeonato Brasileiro no qual você precisa pagar mais para ver.

O Brasileirão 2019 está desfalcado no Premiere porque até agora o Athletico Paranaense não assinou contrato para esta mídia (já possui acordos de TV aberta com a Globo e de TV por assinatura com a Turner). E também já deixou de ter partidas do Palmeiras, que só assinou com o Grupo Globo com o campeonato em andamento, no mês de maio, estreando no PPV apenas no duelo contra o Botafogo, já na sexta rodada. Com isso, o pacote atual do Premiere caiu de 380 jogos para 337 (38 a menos do Athletico e os 5 perdidos do Palmeiras até a assinatura do acordo).

Mas, em 1997, a situação era muito diferente. Não havia toda essa estrutura para mostrar todos os jogos do Brasileirão. Naquele ano, o sistema de disputa ainda era o mata-mata, mas o torneio tinha 26 clubes jogando em turno único, todos contra todos, mais uma fase com dois grupos de quatro times, além das duas finais. Com isso, a quantidade de partidas disputadas não era tão menor assim. Entre os dias 5 de julho e 21 de dezembro de 1997, o Campeonato Brasileiro teve 351 partidas.

O PPV, no entanto, só pode ser vendido a partir de agosto daquele ano. O primeiro mês teve uma guerra de liminares entre a Globosat e a TVA, ambas defendendo que possuíam a exclusividade do Brasileirão na TV paga. A TVA tinha feito um acordo com a CBF alguns anos antes. A Globosat assinou diretamente com o Clube dos 13. No dia 5 de julho, o jornal O Estado de S. Paulo trazia a notícia de que uma liminar obtida pela TVA (então dona da ESPN Brasil) conseguira barrar a estreia do pay-per-view.

Naquela ocasião, as operadoras Sky, Net e Multicanal (que mais tarde seria absorvida pela Net) ofereciam pacotes no valor de R$ 240 (R$ 190 pelos jogos, mais R$ 50 pela taxa de instalação do decodificador – em tempos nos canais era necessário mais um aparelho para um serviço extra de TV). Mas não informava quantos jogos seriam transmitidos. Não vamos levar ainda em consideração esses valores, pois a Justiça barrou mesmo essa estreia.

No dia 9 de agosto de 1997, mais de um mês depois, finalmente houve um entendimento. Assim como acontece atualmente na TV por assinatura, com Esporte Interativo/TNT transmitindo apenas os jogos entre os sete clubes com os quais possui contrato, e o SporTV faz o mesmo apenas em partidas que envolvam dois de seus 13 times, a solução foi permitir as transmissões do PPV e do SporTV quando os jogos tivessem apenas membros do Clube dos 13. Os times que não faziam parte do pacote vendido pela associação dos clubes ficariam no cartel da ESPN Brasil.

Assim, finalmente foi lançado o sistema PPV nas mesmas operadoras citadas há pouco neste texto. Mas a Folha de S.Paulo daquele dia trazia valores diferentes, provavelmente por causa da diminuição das possibilidades de transmissão após mais de 30 dias perdidos na competição.

Quem pudesse assinar o pacote de PPV da Globosat pela Sky teria direito a 74 jogos pelo valor de R$ 199. Não havia indicações sobre taxa de instalação. Até porque muita gente havia topado pagar por ela quando a Justiça impediu a estreia do serviço, e as operadoras tiveram que segurar as cobranças no sistema enquanto não houvesse a transmissão dos jogos.

A reportagem da Folha de S.Paulo também informava o valor dos jogos “soltos”, um tipo de venda que existe até hoje no Premiere, quando você pode comprar uma partida individualmente, mas costuma ter que pagar um valor praticamente equivalente a uma mensalidade completa do serviço. Para ver Goiás x São Paulo ou Bragantino x Santos naquele sábado, o torcedor pagaria R$ 10 e poderia escolher qual das partidas assistir.

Bom, agora chegou a nossa vez de trazer esses valores para 2019. Como fizemos no primeiro post da série, mostrando quanto custava ver Corinthians x Palmeiras na primeira final do Paulistão de 1999, vamos usar o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulado entre agosto de 1997 e maio de 2019 para fazer a correção dos valores por meio de uma calculadora desenvolvida pelo Banco Central do Brasil.

Atualizando os valores, chegamos ao preço de R$ 729,62 pelo pacote de 74 jogos do Brasileirão 1997. Embora não seja possível determinar quais eram as condições de pagamento da época, já que não há relatos na matéria sobre facilitações dessa cobrança em parcelas, podemos considerar que, entre agosto e dezembro daquele ano, em dinheiro de hoje, cada assinante pagou o equivalente a R$ 145,92 mensais. 

Basta uma pesquisa rápida para saber que atualmente o Premiere custa pouco mais de R$ 100 nas principais operadoras em seu pacote com canais HD e acesso ao Premiere Play para ver também pela internet não apenas os 337 jogos garantidos pelo PPV no Brasileirão, mas também a Série B e, em outras épocas, os principais campeonatos estaduais do país.

Sem falar, é claro, que assinar apenas o Premiere Play sem ser cliente de operadora de TV por assinatura hoje em dia custa R$ 79,90 por mês. Não consideramos, é claro, os valores que você precisa pagar atualmente para ter uma internet legal que consiga exibir esses jogos. Assim como não contamos os pacotes de TV paga que são necessários para que um consumidor possa assinar também o PPV do futebol. Afinal, não levamos em conta esses mesmos serviços e quanto custavam em 1997.

Na comparação baseada em salários mínimos, um sistema que permite entender melhor o poder de compra de cada época, uma assinatura do PPV em 1997 custava 165% da renda mensal de alguém que recebesse o salário mínimo de R$ 120 vigente desde maio daquele ano.

Considerando a mensalidade do pacote Premiere Total HD na operadora Net hoje em dia, de R$ 109,90, pagar cinco meses de PPV (uma comparação justa com a duração do Brasileirão 1997) hoje te dá acesso a muitos mais jogos por R$ 549,50, o equivalente a 55% de um salário mínimo de hoje (R$ 998).

Na Sky, que ainda vende o pacote Premiere HD, sem acesso ao Premiere Play, no qual você pode ver os jogos apenas pela TV, a mensalidade é de R$ 87,90. Ou seja, em cinco meses, você terá gastado R$ 439,50, ou seja, praticamente 44% do salário mínimo atual.

Gostou do post? Deixe nos comentários a sua sugestão para os próximos temas da série. Vamos relembrar valores de ingressos, camisas, materiais, contratações, investimentos, etc, e as ideias de vocês serão muito importantes. 

LEIA MAIS
“Quanto Custava”: veja os valores atuais dos ingressos de Corinthians x Palmeiras no Paulistão 1999