O Bragantino, que agora está de volta à elite do Brasileirão com o nome de Red Bull Bragantino, ficou 22 anos afastado da Série A. Sua última participação aconteceu em 1998, quando os 21 pontos conquistados em 23 partidas disputadas renderam a 23ª posição na tabela e o rebaixamento para a segundona.

Para 2020, o time ainda não assinou oficialmente com nenhuma emissora de televisão pelos direitos de transmissão do Brasileirão. A equipe de Bragança fez uma parceria com a austríaca Red Bull para a disputa da Série B no ano passado e, com um grande aporte financeiro e o time herdado da ótima campanha do RB Brasil no estadual, acabou conquistando acesso e título da segunda divisão.

Se fechar as negociações que estão em andamento com a Globo, o Bragantino poderá acabar também com um jejum que dura desde o dia 5 de setembro de 1998. Foi nessa data em que a equipe teve sua última partida transmitida em TV aberta para São Paulo valendo pela elite do Campeonato Brasileiro. E, apesar de ter sido em uma campanha marcada pelo rebaixamento, o jogo é uma boa memória para a torcida de Bragança Paulista.

Era um sábado à tarde no Estádio Marcelo Stéfani, hoje chamado de Nabi Abi Chedid, quando o Bragantino recebeu o líder isolado e invicto Corinthians, que mais tarde confirmaria o favoritismo que já surgia e seria campeão brasileiro com um time histórico comandado por Vanderlei Luxemburgo.

O primeiro problema para o Timão é que Luxemburgo estava sendo dividido com a seleção brasileira naquele semestre. Contratado para substituir Zagallo no comando técnico do Brasil após o vice-campeonato mundial da França, Luxa optou por permanecer simultaneamente no Parque São Jorge até o fim do ano, quando passaria a ser exclusivo da CBF.

Antes daquele jogo contra o Bragantino, Luxemburgo precisou se ausentar da preparação para convocar a seleção brasileira para amistosos. Coube ao auxiliar, Oswaldo de Oliveira, ser o técnico do Corinthians no dia que antecedeu ao duelo que seria transmitido ao vivo para SP pela Globo (apenas para a região metropolitana da capital) e pela Band (para todo o Brasil, menos RJ e a região de Bragança Paulista). As outras praças viram a vitória do Palmeiras por 2 a 1 sobre o Flamengo.

O profissional seria efetivado no comando alvinegro após a saída de Luxa em 1999, demitido, recontratado, campeão paulista, faturaria o bi do Brasileirão no fim do ano, e ainda levaria o primeiro Mundial de Clubes organizado pela Fifa no Brasil no começo de 2000. O combinado era que Oswaldo sempre assumiria o Corinthians nas ausências de Luxemburgo, que conseguiu voltar a tempo de estar no banco no duelo contra o Braga.

O Bragantino, que era comandado por Heron Ferreira, tinha nomes como Piá e Leto, aquele do Mogi Mirim nos tempos do “Carrossel Caipira”, que jogou pelo Corinthians e chegou a ser importante também no São Caetano no início do projeto que alçou o Azulão ao cenário internacional. O técnico Heron tinha ficado famoso em 1994 ao conquistar o título do Campeonato Gaúcho pelo Juventude, e nos últimos anos tem seguido a carreira no Oriente Médio.

Além de encarar o líder invicto do campeonato e viver uma crise financeira, o Bragantino não estava na zona do rebaixamento àquela altura, mas ainda tinha outro tabu a enfrentar: sequer havia vencido em casa no Brasileirão 1998 quando entrou em campo para enfrentar o Corinthians.

A partida começou com o Corinthians pressionando, enquanto o time do interior se fechava e esperava. O time de Luxemburgo teve boas chances com Marcelinho Carioca e Rincón, sempre parando nas mãos do goleiro Emerson Ferreti, que surgiu nas categorias de base do Grêmio, foi jogador do Flamengo e no ano seguinte seria campeão da Copa do Brasil pelo Juventude.

No segundo tempo, a pressão continuava, bem como a insistência do 0 a 0 no placar. Mas isso mudou aos 13 minutos da etapa final, quando Reinaldo aproveitou uma bola escorada de cabeça por Géferson e balançou as redes para o time da casa. Bragantino 1 x 0 Corinthians. Veja o lance abaixo com a narração de Luciano do Valle na Band, além dos comentários de Rivellino:

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo do dia seguinte, Vanderlei Luxemburgo ainda se irritou com um erro durante uma substituição. Atendendo aos torcedores corintianos que estavam nas arquibancadas, o treinador optou por colocar Didi no lugar de Mirandinha. Mas a placa do quarto árbitro subiu com o número de Rincón, o equívoco não foi desfeito, e Mirandinha permaneceu em campo. Apesar de ter tido mais duas chances com Marcelinho Carioca em cobranças de falta, o placar não foi mais alterado.

Depois do jogo, de acordo com a Folha, Luxemburgo disse que sua ausência na preparação para o duelo contra o Bragantino não prejudicou o Corinthians. “Já me ausentei outras vezes, como na Copa do Mundo, por 40 dias, e meus auxiliares ficaram na preparação. Nem por isso o time começou mal o Brasileiro”, afirmou o treinador.

A reportagem destacava que o time alvinegro tinha 80% de aproveitamento nos primeiros jogos do semestre antes do anúncio de Luxa como novo técnico da seleção, índice que caiu para 50% após a novidade. “São coisas do futebol. Não se pode culpar a seleção por isso”, disse o técnico, que ainda criticou Didi pelo erro na substituição.

“O Didi demonstrou falta de concentração. Ele sabia que quem tinha que sair era o Mirandinha, por isso deveria ter continuado fora quando viu que Rincón estava saindo”.

Se hoje o Red Bull Bragantino é um clube-empresa controlado por uma multinacional austríaca, a realidade nos anos 1990 era de muita politicagem envolvendo a equipe e família Chedid, que mandou no Braga até a chegada da nova parceira no ano passado.

Segundo a Folha, o clube organizou naquele jogo em setembro de 1998 uma homenagem a Vanderlei Luxemburgo, que estourou para o mercado como treinador ao ser campeão paulista comandando o Bragantino oito anos antes. Mas a época era de eleições gerais, e o evento virou um ato político.

Participaram da entrega de uma camisa do Bragantino com as cores da seleção brasileira o então deputado estadual Nabi Abi Chedid (que também foi vice-presidente da CBF) e seu filho, que era candidato a deputado federal, Marquinho Chedid, que ainda preside oficialmente o Clube Atlético Bragantino na atualidade. Luxa disse que não se envolvia com política, mas agradeceu a homenagem.

“Foi o Nabi e o Marquinho que me deram condições de trabalhar. Se não tivesse respaldo deles, não estaria aqui. Eles acreditaram no meu trabalho”, afirmou o treinador.

Para piorar a situação, Bragança Paulista estava dividida por uma briga na família Chedid. É que Nabi ganhou a concorrência do próprio sobrinho, Edmir Chedid, na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo, enquanto Marquinho disputou votos para a Câmara com seu tio, Jesus Chedid, que tinha sido prefeito da cidade.

No estádio, faixas como “Nabi, Marquinho e Wanderley sempre juntos” e “Nabi é Braga” apareciam aumentando o tom político de uma campanha que terminaria em rebaixamento do clube dentro do campo. Nabi Abi Chedid, que morreria em 2006, foi reeleito para mais um mandato como deputado estadual. Marquinho não conseguiu seguir na Câmara dos Deputados em Brasília.

O curioso é que, apesar de ter sido rebaixado em uma campanha que teve até goleada sofrida para o Palmeiras por 4 a 0, o Bragantino, além de ganhar e tirar a invencibilidade do futuro campeão Corinthians, também tinha conseguido vencer o Flamengo em pleno Maracanã por 1 a 0 em agosto daquele ano com um gol que pegou até o saudoso narrador Deva Pascovicci, então no SporTV/Premiere, de surpresa. Foi inclusive Reinaldo, o mesmo carrasco dos corintianos, quem determinou a derrota rubro-negra:

Como se não bastasse, a campanha da queda ainda contou com um triunfo por 2 a 0 contra o Atlético-MG no Mineirão.

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