Vivemos em tempos nos quais você aparentemente só tem duas opções ao ser palmeirense: aceitar tudo o que está sendo feito pela direção, patrocinadora e elenco, ou voltar a lutar contra o rebaixamento todo ano.

Esse pensamento binário, como todo pensamento binário, é bem burro. Não é possível que se viva em paz em um relacionamento abusivo com a gestão de Maurício Galiotte, com os caprichos da patrocinadora e conselheira Leila Pereira, e sem questionar o trabalho feito por Alexandre Mattos sobretudo em 2019.

Não vai doer. O Palmeiras não vai perder automaticamente 40 pontos e lutar contra o rebaixamento se você parar para pensar que há formas de dar certo por fora dessa caixinha que aprisiona mentes mais alienadas.

O Palmeiras, reza a lenda dos cegos defensores “de tudo isso que está aí”, só funciona se tiver cerco na rua do estádio (ops, arena), ingressos caros, contratações aos montes para inchar elencos, e necessidade extrema de rachar a torcida se envolvendo em questões políticas.

Caso contrário, a Série B estaria na esquina da Matarazzo com a Turiassu, tal como um Uber, esperando para um passeio em seus gramados. Imagino até que alguns dos mais radicais devem pensar que, sem tudo isso, um belo dia o Allianz Parque seria trocado pelo velho Palestra Italia na calada da noite. Bu!!

A grande realidade é que o Palmeiras fez, sim, um trabalho incrível de reconstrução a partir de 2015. Trouxe o torcedor para a arena, arrecadou muito dinheiro, conseguiu um patrocínio acima da média no mercado, se posicionou como força que briga por todos os títulos e acabou com as dívidas do passado.

Mas, de algum tempo para cá, começou a errar tudo o que era possível. Contratações inacreditáveis, como as de Carlos Eduardo, Ramires. Vacilos na hora de vender peças como Deyverson, há muito tempo mais mal visto que apoiado pela torcida. Dívida com a Crefisa por contratações que eram para ser “presentes”. Posturas patéticas em mata-matas deixaram o Palmeiras longe dos objetivos esportivos e financeiros em grandes competições. Clássicos, tirando contra o São Paulo em casa, viraram sinônimo de drama. Mas, aparentemente, temos que aceitar tudo isso. Discordar faria o Adriano Michael Jackson aparecer com a camisa do Palmeiras no próximo jogo. Ou talvez o Gioino?

O fato é que o Palmeiras virou um time resultadista desde quando trocou o espírito da Academia e da primeira fase da Parmalat pelo estilo de Felipão. Rendeu o maior título que a minha geração viu ao vivo, a Libertadores de 1999. E aprisionou os pensamentos alviverdes, como se impossível fosse aplicar futebol ofensivo e eficiente nas alamedas.

O mau de você aplicar o resultadismo é que ele só dura enquanto há… resultados. Não dá para culpar a torcida pela revolta por um ano sem títulos. Quem acostumou as mentes dela a isso foi quem está no comando alviverde há decadas.

O “Parmera”, aquele dos anos 40, 50, 60, 70, e que foi ressuscitado por algumas temporadas com o dinheiro da Parmalat, era um time que gostava da bola, do gol, de dar espetáculo com vitórias. Não um em detrimento do outro. Não era perfeito. Errava. Perdia títulos que fazem falta até hoje, como as Libertadores dos anos 1960, a de 1994, os troféus perdidos em 1996 após o empolgante Paulistão dos 100 gols. É lógico que perdia, que irritava algumas vezes os mais cornetas.

Mas era um Palmeiras mais ligado ao povo, um Palmeiras que ousava em campo, que fazia questão de ser o melhor, e não apenas fazer um gol a mais que o adversário. Que encarava clássicos, fosse o Santos do Pelé, ou o Corinthians da Hicks Muse, como jogos históricos à parte.

Será que algum dia aquela emoção de ver um time brigando o tempo todo pelo melhor futebol, encantando a torcida e dando gosto de saber a escalação vai voltar? A simplicidade de um domingo à tarde nas proximidades do estádio? A alegria e o entusiasmo em semana de clássico, em vez do medo constante de passar vergonha? Será que o “Parmera” voltará? Ou é considerado tosco demais por quem vê futebol com a mesma emoção com a qual fecha um balanço ou aplica dinheiro na bolsa?

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