Hoje a Série B do Brasileirão terá um duelo carregado de história em sua 32ª rodada: Guarani x Sport. Além de dois campeões brasileiros (1978, para o time de Campinas, e 1987, para o de Recife), esses clubes protagonizaram uma das finais mais polêmicas da história do Campeonato Brasileiro. Foi nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro de 1988, valendo pela edição do ano anterior. Uma decisão que teve transmissão exclusiva do SBT para todo o Brasil.

Antes de mais nada, dois esclarecimentos: este blog considera que tanto Flamengo, quanto Sport Recife, podem se considerar campeões brasileiros de 1987. Aqui vamos registrar um fato: o SBT transmitiu uma final de Brasileirão oficial considerada pela CBF, entidade responsável pelo campeonato nacional de futebol. Sport e Guarani representaram o país na Libertadores seguinte e são, de direito, campeão e vice daquela temporada.

Da mesma maneira, a Rede Globo exibiu a decisão entre Flamengo e Internacional no ano anterior, válida pela Copa União, que foi uma competição muito mais organizada que o Brasileiro tradicional, contou com amplo dos torcedores na época, foi uma iniciativa dos 13 maiores clubes do país na ocasião, rendeu o primeiro contrato coletivo de direitos de transmissão da história do futebol brasileiro, e ajudou a combater os bizarros inchaços políticos que o Nacional sofria nos anos 1970 e 1980.

Essa explicação já ajuda a entender o que aconteceu. A Copa União foi uma cisão dos grandes clubes brasileiros com a CBF do então todo-poderoso Nabi Abi Chedid, que nem presidente da entidade era (ocupa o cargo de vice), mas mandava e desmandava.

Para se ter uma ideia, o Brasileirão de 1986 teve 80 participantes. Sim, oitenta! Os clubes gigantes não poderiam mais aguentar os formulismos toscos, os jogos desinteressantes, e os calendários bizarros (o campeonato de 86 terminou em 25 de fevereiro de 1987, vencido pelo São Paulo contra o Guarani na final). Segundo a revista Placar, por exemplo, Palmeiras e Grêmio não se enfrentavam desde 23 de julho de 1978. Ou seja, um duelo que passava a década de 1980 sem acontecer. Cruzeiro x São Paulo, pior ainda, desde 1976. A politicagem enchia o campeonato de clubes e tirava os grandes clássicos da tabela.

Com o apoio da Rede Globo, os 13 clubes de maior torcida no Brasil (em ordem alfabética: Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco) romperam com a entidade máxima do futebol brasileiro e resolveram organizar um campeonato próprio, vendendo os direitos de transmissão dele para a emissora carioca, que investiria para valer na modalidade pela primeira vez. Para completar 16 vagas, porém, o Clube dos 13 apelou à politicagem. Chamou três torcidas fortes: Coritiba, Goiás e Santa Cruz, ignorando o então vice-campeão, o Guarani, relegado ao que seria, na cabeça dos grandes clubes, a segunda divisão nacional.

A Copa União foi um sucesso, teve grandes audiências na Globo, colocou de vez o futebol no calendário das emissoras e garantiu a renda da televisão para os clubes. Mas a CBF queria que campeão e vice daquela competição enfrentassem, em um quadrangular, campeão e vice do torneio que ela organizou. Seria entre Flamengo, Internacional, Sport e Guarani.

Inclusive a entidade tinha conseguido que o SBT transmitisse a decisão do Módulo Amarelo, conhecida até hoje pela decisão inacabada nos pênaltis, que ficaram no 11 x 11, um encerramento “na camaradagem”, e um Sport declarado campeão apenas posteriormente por ter a melhor campanha. Aqui vai a primeira grande explosão causada por Sport e Guarani: os atrasos e o jogo “interminável” conseguiram a proeza de cancelar um programa do dono da emissora. Sim, Silvio Santos teve que desistir de apresentar o “Show de Calouros” por causa do futebol. Confira:

“Não fiquem tristes, vamos ter ‘O Homem Cobra’, (o filme) vai passar agora na primeira sessão, depois vai repetir na segunda sessão. Não temos tempo. O futebol começou, nunca mais acabou, e agora não temos tempo”, disse Silvio Santos, que nunca foi muito fã de esportes em sua emissora, aparentando estar bastante irritado.

Mesmo assim, o SBT se manteve na parada. Era uma forma de a CBF cutucar a Globo, que fez acontecer a Copa União contra os interesses da entidade. Flamengo e Internacional, como esperado, se recusaram a participar do quadrangular organizado para definir o campeão brasileiro. Era uma posição conjunta do Clube dos 13, ninguém participaria, nem validaria a posição da confederação. Para eles, o campeão brasileiro de 1987 era o Rubro-Negro, vencedor da Copa União. Anos mais tarde, por diversos motivos, alguns dos clubes envolvidos naquele movimento e seus torcedores se esqueceram disso e passaram a atacar o Flamengo, considerando apenas o Sport como campeão nacional daquele ano. Repetimos: para este blog, ambos têm o direito de se considerarem campeões.

Cada jogo de Sport e Guarani contra Flamengo e Internacional foi marcado, e a CBF organizou inclusive para que fossem oficializados todos eles com o resultado de W.O., mesmo com estádios vazios e o protocolo da espera do tempo regulamentar. Mas os duelos diretos entre pernambucanos e paulistas seriam de fato a final do Campeonato Brasileiro de 1987. E esse torneio foi vendido ao SBT.

A grande decisão aconteceu no dia 7 de fevereiro de 1988, recuperando a política varzeana da CBF de decidir o campeão de uma temporada já no ano seguinte. Sport e Guarani se enfrentaram na Ilha do Retiro, em Recife, depois de empatarem em  1 a 1 no Brinco de Ouro, em Campinas, uma semana antes. A Folha de S.Paulo destacava naquele dia dentro de seu caderno de Esportes: “Campeão da CBF pode sair no sorteio”.

“O campeão brasileiro de 87 para a Confederação Brasileira de Futebol poderá sair de um sorteio caso o jogo Sport x Guarani não tenha vencedor, esta tarde, às 16h, na Ilha do Retiro, em Recife (PE). As duas equipes empataram a primeira partida em Campinas e se houver empate no tempo normal e na prorrogação, a decisão será no sorteio. A final vale pelo cruzamento do módulo verde com o amarelo (que não aconteceu porque Flamengo e Inter (RS), campeão e vice do verde, conseguiram ações na Justiça Comum). O jogo será mostrado pela TVS”, abria a matéria no jornal.

A Folha ainda informou que Sport e Guarani receberiam, cada um, uma cota de Cz$ 600 mil pela transmissão em todo o Brasil na emissora de Silvio Santos (TVS era o primeiro nome do SBT, e ainda ficou em uso por alguns tempos no ‘Sistema Brasileiro de Televisão’). Pedindo licença à nossa série “Quanto Custava?”, esse valor convertido para real e atualizado pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) equivale a R$  66.519,76 de hoje. Quem fosse campeão levaria outros 200 mil cruzados, totalizando um prêmio de Cz$ 800 mil (R$ 88.693,02 em valores atuais).

A transmissão do SBT teve narração de Ivo Morganti, comentários de Clodoaldo, e reportagens de Jorge Kajuru e “Theobaldo”, como era conhecido o ator Roberto Marquis, improvisado na função de repórter, e mais famoso por interpretar o “Guarda Juju” no humorístico “A Praça é Nossa” na emissora.

Na abertura, Ivo Morganti dava o tom: “O SBT trazendo para você de Recife, ao vivo, direto para você, a grande decisão do Campeonato Brasileiro de 1987 entre Sport e Guarani. Guarani e Sport decidindo o título que vale, o título do Campeonato Brasileiro que vale. E é bom ressaltar também que a taça está aqui para ser entregue também ao campeão. Portanto, esse é o título do Campeonato Brasileiro. Eles fazem futebol o ano inteiro, só que a decisão quem faz é o Sistema Brasileiro de Televisão”, provocou o locutor, se referindo às outras emissoras.

Em campo, o Sport venceu por 1 a 0 e se sagrou campeão brasileiro, seu primeiro título nacional. Há no YouTube um registro na íntegra da partida. Confira o jogo completo, com Kajuru na reportagem, as provocações e reafirmações do SBT sobre o status daquela decisão, e o dia histórico em que a emissora de Silvio Santos mostrou com exclusividade uma final de Campeonato Brasileiro.

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