A Copa América 2021 quebrou jejuns também na mídia esportiva brasileira. Pela primeira vez desde 1989, as partidas foram exibidas pelo SBT. Mais: foi a primeira vez também desde os anos 1970 em que a Globo não transmitiu o torneio. Os canais Disney (ESPN e Fox Sports) também assumiram o papel que vinha sendo do SporTV nas últimas edições. E os trabalhos mostraram evoluções importantes.

Em junho de 2020, quando o Blog do Allan Simon começou sua trajetória no YouTube, dois vídeos se destacaram: um no qual abordávamos as dúvidas a respeito da fusão dos canais esportivos do Grupo Disney, e outro que contava a história de uma briga histórica entre SBT e Globo pela transmissão do Paulistão em 2003, mas em um tom de quem tratava a emissora de Silvio Santos como um player “finado” no mercado esportivo.

Um ano depois, as duas marcas participaram da cobertura de uma Copa América cercada de polêmicas, realizada em meio a uma pandemia e com troca de sede a poucos dias de seu início. O trabalho, portanto, era extremamente difícil: montar uma logística às pressas após ter tudo planejado para jogos na Argentina e na Colômbia.

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Lidar com a rejeição a um torneio que se misturou com política após o governo federal do Brasil ter sido fundamental para que o país recebesse em cima da hora a competição sem debate algum com a sociedade. Tudo isso aumentou uma dificuldade que já seria natural, principalmente para o SBT: enfrentar a Globo na briga pela audiência.

Há duas formas de olhar a Copa América por esse prisma: ou mostramos que a audiência caiu pela metade em comparação com as transmissões da Globo, ou mostramos que o SBT bombou seus números tradicionais e conseguiu na final o feito histórico de liderar o Ibope em SP contra a novela das nove, o que o futebol não via desde a decisão do Mundial de Clubes de 2000, quando o Corinthians foi campeão em cima do Vasco nos pênaltis.

Particularmente, prefiro olhar a importância que a Copa América teve para um todo no projeto do SBT. Se fosse uma competição isolada na grade da emissora, com equipe de aluguel, etc, poderíamos analisar como ruim o fato de ter liderado na média apenas com a última partida, um Brasil x Argentina.

Mas sigo na linha que apresento desde setembro do ano passado, na Libertadores: se há perda de audiência e alcance, o problema não é do SBT, mas todo da Conmebol, e ela não parece estar incomodada. Tanto que, sabendo da baixa nos números de sua principal competição de clubes, insistiu e vendeu também a Copa América para a emissora.

O SBT teve três momentos-chave com futebol de um ano para cá. Transmitiu o Fla-Flu que decidiu o Campeonato Carioca 2020, mostrou uma final brasileira da Libertadores 2020, já em janeiro deste ano, e exibiu um Brasil x Argentina valendo taça.

Na primeira vez, tinha uma equipe emprestada, a transmissão era apenas pontual. Téo José, convidado a narrar, ainda era funcionário do Fox Sports em tempos de dúvidas sobre a fusão da ESPN Brasil. Foram chamados alguns ex-jogadores, usada a equipe de reportagem do SBT Esporte Rio, a audiência veio (26 pontos de média no RJ, com direito a empate com o JN e novela da Globo), e tudo deu certo.

Mas o que o SBT tinha a apresentar ao fã de futebol que passou pela grade da emissora naquele dia? Tirando a região Nordeste, eram 17 anos sem transmitir a modalidade para o restante do país. Nada. Nada a mostrar, a não ser anunciar os produtos de entretenimento do canal.

Em janeiro de 2021, a coisa mudou. O SBT tinha equipe própria, Téo José já era contratado da emissora, Mauro Beting se consolidava como comentarista principal, André Galvão e Fernanda Arantes atuavam nas reportagens, e o futebol ia ganhando uma “cara”. A média ficou entre 25 e 26 pontos no Ibope em SP, o título do Palmeiras sobre o  Santos na final da Libertadores entrou para a história, mas o que havia para anunciar ao público do futebol? A próxima Libertadores, que começaria 39 dias depois.

Desta vez, o SBT conseguiu picos de 24 pontos em São Paulo, teve boa audiência também no RJ (embora não tenha vencido a Globo na média), e aproveitou a final da Copa América para desfilar ao telespectador eventual um pacote muito mais completo. Tem jogo de Libertadores já para terça-feira (São Paulo x Racing), tem Supercopa da UEFA para 11 de agosto, tem UEFA Champions League vindo dias depois.

Isso se chama “criação de cultura futebolística”. TV aberta funciona na base de costume e cultura. A quantidade de seguidores do nosso blog “perdidos” no Twitter e no YouTube querendo saber onde seria transmitido o Palmeiras x Santos do último sábado (10), um jogo que estava na Globo, de graça, mostra que os telespectadores nem imaginaram que essa transmissão seria possível. Motivo: futebol na Globo é de domingo às 16h e quarta às 21h30. Fugiu disso? Bagunça nas mentes dos torcedores.

O SBT não é um canal conhecido por futebol. Nem poderia ser, após ficar de 2003 a 2018 sem jogo algum na grade em todo o país, e entre 2018 e 2020 só mostrando regionalmente a Copa do Nordeste. Mas está começando a ficar.

O fã do esporte mais popular do país começa a ter que sintonizar a emissora cada vez em mais oportunidades. Para ver a Libertadores, para ver a Copa América, para ver a Champions League, outros torneios menores da Conmebol que vieram no pacote também poderão ser exibidos nos próximos anos, com destaque para o Pré-Olímpico que dará vagas nos Jogos de Paris-2024. Isso é cultura esportiva.

Teria sido mais fácil para a Band, é claro, que é conhecida até hoje como “O Canal do Esporte” mesmo não sendo nem 10% do que foi um dia com Luciano do Valle. Mas o SBT mostrou que o trabalho está no caminho certo. Resgatou elementos históricos, como a trilha sonora e o Amarelinho, sem perder a sintonia com a modernidade em cenários muito bonitos e tecnológicos.

Ainda há muita coisa a percorrer. A emissora peca feio com os cortes bruscos após os jogos, entregando para o Programa do Ratinho e “expulsando” o fã do futebol em jogos que terminam mais quentes, como foi o caso daquele Brasil 2 x 1 Colômbia na fase de grupos. A grade também é fraquíssima, o que faz com que as transmissões esportivas peguem um Ibope muito baixo, prejudicando a média geral das partidas.

Mas é inegável que o SBT correu atrás de todos os outros pontos que criticamos desde setembro. Montou um programa semanal de esportes, o Arena SBT, preencheu a grade com o SBT Sports nas manhãs de domingo. Ainda falta algo em um horário mais amigável. Não para concorrer com Globo Esporte e Jogo Aberto, claro, seria terrível e desfavorável para a emissora essa disputa. Mas quem sabe um rearranjo no fim de tarde, um bloco fixo dentro do SBT Brasil? Ideias não deverão faltar.

Necessário também destacar que a emissora criou um site de esportes, usando a marca “SBT Sports”, que sinaliza um caminho certo em tempos tão digitais. A página ainda é ruim, usa o mesmo espaço do site do SBT (que não tem layout próprio de notícias, sendo mais parecido com releases de emissora na estética), mas deve evoluir muito, porque já há o trabalho feito com o SBT News atualmente. É só seguir o padrão.

Competições que não cabem na grade da TV aberta, como foi recentemente o caso das eliminatórias sul-americanas de futebol de areia, poderiam ser exibidos na internet em uma plataforma própria. Não seria bom? O fato é que hoje o SBT é um player a ser respeitado e ouvido nas questões de direitos de transmissão.

Fusão ESPN-Fox chega ao auge com a Copa América

O processo de fusão dos canais Disney, com a junção dos times de ESPN Brasil e Fox Sports, começou em 2020. Mas foi feito aos poucos com a integração de funcionários, marcas, etc. A temporada europeia que começou já na pandemia e terminou recentemente foi usada para implantar esses novos tempos, uma “troca de pneus com o carro andando”.

A Copa América, primeiro grande torneio exibido já com os pneus trocados, mostrou o auge dessa junção. Os jogos foram divididos entre ESPN e Fox sem a necessidade legal disso (na Libertadores, por exemplo, a Disney é obrigada por uma acordo com o Cade a manter os jogos no Fox Sports), mas como estratégia por audiência. As partidas mais importantes ficaram na ESPN, enquanto a Fox deu suporte nos demais jogos.

Com Paulo Andrade, Nivaldo Prieto, João Guilherme e Luiz Carlos Largo na maioria dos jogos, ficou claro o que saiu da fusão: uma equipe forte com estilos diferentes e para todos os gostos. A pandemia ainda impede a volta aos estúdios, programas como o SportsCenter e Bate-Bola seguem remotos e assim deve ser até que as coisas fiquem mais tranquilas.

As audiências, sempre altas, mostraram que a tradição – principalmente da ESPN – foi capaz de migrar o público esportivo que era acostumado a ver a Copa América no SporTV. Melhor ainda para a Disney: vai se criando a cultura de que competições sul-americanas são em seus canais, já que também exibe a Libertadores.

Em agosto, a empresa lança o seu novo streaming, o Star+, que deverá ter conteúdos esportivos e os sinais da ESPN. No fim do ano se encerra o prazo para a manutenção da marca Fox Sports no ar, podendo virar tudo “ESPN” se assim a Disney quiser.  A Copa América deixou claro que agora é só questão de estratégia: a fusão está funcionando – e bem.

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