Quando o Blog do Allan Simon nasceu, em 13 de maio de 2019, o tema do momento era a negociação difícil entre Palmeiras e TV Globo pelos direitos de transmissão em TV aberta e PPV do Brasileirão para o período entre 2019 e 2024.

A emissora também tinha problemas com o Athletico Paranaense por causa do Premiere – e isso persiste até hoje. Era um raro momento de dúvida sobre transmissões esportivas na Mídia Esportiva brasileira.

Quando o Blog do Allan Simon se transformou e foi buscar novos ares no YouTube, em 16 de junho de 2020, o mercado esportivo brasileiro vivia as dúvidas provocadas por uma pandemia que já matava milhares de pessoas todos os dias no país.

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Os campeonatos estavam paralisados, não se sabia quando poderiam voltar, e se poderiam voltar. A postura deste blog sempre foi a mesma: contrária ao retorno das atividades esportivas enquanto não houvesse cobertura vacinal satisfatória. Voto vencido, claro, como em qualquer outra discussão sobre isolamento social no Brasil da pandemia.

Ainda assim, o papel do Blog do Allan Simon foi levar informação sobre o que rolava no mundo da Mídia Esportiva, não importando a nossa opinião sobre os campeonatos e a existência do futebol em si. E não foi pouca coisa que rolou.

Logo nos primeiros dias de vida do canal no YouTube, o presidente Jair Bolsonaro assinou uma medida provisória que trazia uma ideia boa, conceder os direitos de transmissão aos times mandantes, destravando negociações como aquelas que deixaram jogos do Palmeiras sem transmissão em 2019 no Brasileirão, na origem da nossa versão escrita, mas muito mal executada.

A MP 984/2020 deixou buracos, como a interpretação se seria válida ou não para contratos em vigor, o que gerou batalhas judiciais como as que levaram o Flamengo a transmitir por conta própria no YouTube uma partida contra o Boavista pelo Campeonato Carioca 2020.

O clube visitante tinha seus direitos de transmissão vendidos com exclusividade para a Globo. O Rubro-Negro era o único time sem contrato no estadual, e por isso seus jogos ficavam no “escuro”, tal como o Palmeiras nas primeiras rodadas do Brasileirão do ano anterior. A Globo alegou que a exclusividade foi quebrada e rescindiu, de forma unilateral, um contrato válido até 2024 com a Ferj e demais clubes.

A confusão se estendeu ao Brasileirão, onde a WarnerMedia, dona da então marca Esporte Interativo, resolveu usar a MP e agendou, na tabela da CBF, jogos que tinham times do SporTV como visitantes diante dos clubes com os quais a TNT possuía contratos. Mais briga de liminares, desta vez vencida pela Globo, que impediu qualquer transmissão desse tipo na concorrente, mas não conseguiu o mesmo para jogos do Athletico Paranaense como mandante em um PPV próprio.

Nesse cenário todo, a grande novidade era a entrada pontual do SBT no mundo do futebol em rede nacional. Por meio de suas afiliadas, até tinha voltado a transmitir jogos em 2018 com a Copa do Nordeste. Mas o esporte ainda era coisa do passado na matriz, em São Paulo. Até o Flamengo surgir com a ideia de transmitir pela emissora de Silvio Santos a decisão do Carioca contra o Fluminense.

Sucesso comercial e de audiência, com 26 pontos de média no Rio de Janeiro, e liderança por vários minutos contra a Globo em pleno dia de Jornal Nacional e novela, a experiência fez o SBT abrir os olhos de novo para o potencial do futebol.

Mas ainda era um terreno difícil. A realidade parece estranha aos olhos de hoje, junho de 2021, mas há um ano havia uma “verdade absoluta”: sem a Globo, não tem esporte na TV aberta. Se a emissora da família Marinho não quisesse os grandes campeonatos, ninguém mais teria orçamento e condições de bancá-los. E isso era uma verdade, sim. Nos valores praticados até então, ninguém poderia herdar os campeonatos.

A Globo sabia disso. E por isso tentou uma rescisão unilateral também com a Libertadores, competição de clubes mais importante da América do Sul, uma das mais importantes do mundo. Queria reduzir os valores pagos todos os anos, cerca de 60 milhões de dólares pelos direitos de transmissão em TV aberta e pelo pacote do SporTV. A carta com a quebra do acordo chegou à Conmebol em agosto de 2020.

O tiro foi certeiro, mas no pé da própria Globo. A Conmebol não topou reduzir, não aceitou uma nova proposta de 45 milhões de dólares, e ainda acionou a emissora carioca em um tribunal na Suíça. As relações não vinham tão boas desde o estouro dos escândalos da Fifa em 2015. A atitude da Globo detonou de vez a bomba.

A situação naquele momento era muito clara: a TV aberta ficaria sem a Libertadores. E quase metade da competição ficaria também completamente no escuro no Brasil sem o SporTV. Foi quando ressurgiu novamente o SBT. Em um movimento surpreendente, a emissora de Silvio Santos resolveu assumir o pacote de TV aberta da Globo até o fim de 2022, dando uma ideia de que a pontualidade da final do Carioca viraria um projeto de longo prazo.

Paralelo a isso, uma negociação frustrada entre Globo e Liberty Media colocava em dúvida o futuro da Fórmula 1 na TV aberta brasileira. A emissora não topava pagar mais que US$ 20 milhões por temporada. A Liberty queria, segundo informações do UOL Esporte na época, US$ 22 mi. Mas o negócio esbarrava também na vontade que a empresa tinha de lançar o streaming F1TV Pro no Brasil, algo que a Globo não aceitava dentro da sua política de “ou tenho exclusividade sobre tudo, ou não compro nada”.

Nas eliminatórias da Copa do Mundo, onde a “lei do mandante” já existia por determinação da Fifa, a Globo só tinha conseguido comprar os direitos dos jogos de Brasil e Argentina em casa. Um outro pacote ficava sem dono, e a Mediapro, que juntou as outras oito federações continente, cobrava muito alto por ele.

Naquele instante, o público brasileiro tinha se salvado de ficar sem a Libertadores na TV aberta, mas corria o risco de perder Fórmula 1, Campeonato Carioca, jogos da seleção como visitante nas eliminatórias e tantas outras competições, até mesmo as da Fifa, visto que a Globo atrasou uma das parcelas a serem pagas pelo pacote que tem a Copa do Mundo como protagonista e inclui os outros torneios internacionais organizados pela entidade.

O Blog do Allan Simon sempre teve um lado nessa história: o da defesa intransigente do acesso ao esporte para a maioria do povo brasileiro via TV aberta e gratuita. A torcida sempre foi por desfechos que dessem ao torcedor a oportunidade de ver sem pagar nada pelo menos parte de alguns campeonatos, e a totalidade de partidas da seleção e a própria Fórmula 1, como foi por tantos anos.

Os defensores da bolha privilegiada da internet correram para comemorar os novos tempos como se fossem de “derrotas da Globo”, que seguia firme em outras áreas, como entretenimento, produção de realities, parceiras com gigantes mundiais em seu Globoplay, agora vendido em conjunto com o Disney+, canais da antiga Globosat, Premiere, Combate, Deezer, Apple TV+, e até mesmo com o PPV de futebol comercializado pelo Amazon Prime Video.

A derrota em jogo sempre foi a do povo brasileiro, que perdeu a Libertadores no SporTV, um canal muito mais acessível do que o absurdo PPV inventado pela Conmebol e suas parceiras Claro, Sky e Band. Um pacote que custa inacreditáveis R$ 40 mensais para ter jogos que antes estavam na mensalidade comum da TV paga.

Se fomos defensores da TV aberta, também nos posicionamos de forma contrária à profusão de pacotes caríssimos de PPV. Não, o Premiere nunca foi bom exemplo, mas a solução tampouco seria a criação de outros tantos modelos que dobraram ou até triplicaram o valor a ser pago pelo que antes estava em um ou dois pacotes.

Mas a TV aberta venceu. O bom senso prevaleceu. Organizadores e comercializadores de direitos de transmissão, ao ver a postura da Globo se modificar, também mudaram. Em outros tempos, SBT e Record tinham dinheiro para fazer propostas maiores que a da rival, mas perdiam as concorrências porque tinham menos audiência. A Globo pagava menos e levava tudo.

Agora, o mercado da Mídia Esportiva viu que TV aberta no Brasil é imprescindível. A Conmebol percebeu e topou receber apenas US$ 15 milhões por ano para ter a Libertadores no SBT. A audiência caiu pela metade em relação à Globo, mas a outra opção, dada a disputa judicial iniciada, seria sumir do mapa de milhões de brasileiros sem acesso à TV paga ou internet de qualidade.

O Campeonato Carioca tentou um modelo financeiramente ruim, mas ainda prezou pela manutenção de um jogo por rodada em TV aberta, dando um novo fôlego à Record no esporte após anos de desmanche. A Liberty Media conseguiu implantar seu streaming próprio no Brasil sem a Globo, também viu o Ibope se reduzir pela metade, mas fincou bandeira na tela da Band, talvez o canal com maior tradição esportiva do Brasil.

A UEFA, que cometeu o erro de achar dispensável a TV aberta na licitação da Champions League em 2018, entregando tais direitos a um serviço de streaming que não se sabia como seria, se teria boa qualidade ou não, em um país onde ter acesso a internet NÃO significa ter uma boa conexão para ver jogos ao vivo, corrigiu a rota e vendeu os direitos do próximo ciclo ao SBT (2021/22 a 2023/24).

Mais: colocou na emissora de Silvio Santos até a UEFA Europa League. E manteve TNT e ESPN/Fox como emissoras oficiais de suas competições por mais três temporadas. As próximas finais desses torneios estarão disponíveis em rede nacional no SBT.

Um fato que este blog comemorou como comemoraria se a escolhida fosse a Globo, a Record, a Band, a RedeTV!, quem fosse, mas lamentaria se novamente fosse um streaming (principalmente um ruim) o vencedor dos direitos de transmissão gratuita.

No meio disso tudo, as eliminatórias foram parar nas mãos de um canal absolutamente desconhecido, a TV WA, que não disse como pagaria, como transmitiria, não tinha sequer sinal HD nas poucas operadoras onde constava na grade. Não deu certo, ainda bem. Os direitos foram parar onde deveriam estar: na TV aberta brasileira, com a Globo. Mais um fato comemorado.

A Fórmula Indy, que deixou a Band após resultados ruins de audiência, encontrou guarida na TV Cultura, que transmite também a Fórmula E, a Liga Nacional de Futsal, o NBB… A TV Brasil, usada pela CBF para mostrar um dos jogos do Brasil nas eliminatórias antes da novela “TV WA”, adquiriu mais jogos da Série D do Brasileirão.

A parceria do DAZN com a Band pela Série C se expandiu e chegou ao interior e litoral paulista. A Copa do Nordeste cresceu no SBT, tem promessas de pelo menos tentar nacionalizar a final no ano que vem, e ganhou um sistema de PPV muito mais acessível que qualquer outro no país em torneios de elite.

A Copa América, dúvida ainda em 2019, após a edição realizada no Brasil, pois a Globo não comprava os direitos de transmissão enquanto os preços estivessem altos, também foi garantida pelo SBT. Das maiores redes do país, apenas a RedeTV! não entrou no circuito das grandes competições e eventos.

Mas esse um ano de loucuras, de notícias chocantes para quem se acostumou a décadas de estabilidade e domínio global, termina com uma só constatação: a TV aberta venceu. Venceram os que defendem o acesso garantido e gratuito a pelo menos parte das competições e eventos esportivos.

Se a audiência caiu naqueles que saíram da Globo, o problema é de quem organiza e vende publicidade e patrocínios. Mas antes de dizer que 12 é menor que 25, o óbvio, lembremos outra obviedade: 12 é maior que 0. O povo brasileiro não poderia pagar o pato de brigas que não são dele.

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