A seção “Como Era?” hoje vai relembrar um período que marcou o Brasileirão entre 2002 e 2006. Depois de duas temporadas transmitindo sozinha a principal competição nacional, a Rede Globo sublicenciou à Traffic os direitos do Campeonato Brasileiro em 2002. A empresa de J. Hawilla (1943-2018) tinha saído da Band, onde comandava o departamento de esportes desde 1999, e migrou para a Rede Record.

Nos anos seguintes, mesmo sem a Traffic, a emissora de Edir Macedo manteve as transmissões e até tentou crescer na área esportiva, vindo posteriormente a comprar a exclusividade dos Jogos Pan-Americanos e das Olimpíadas de Londres. No acordo com a Globo, sobretudo a partir de 2003, quando o Brasileirão passou a ser disputado em pontos corridos, havia a possibilidade de partidas exclusivas para a Record.

Como eram os jogos exclusivos da Record no Brasileirão

Eram jogos diferentes dos que seriam transmitidos pela dona dos direitos. Normalmente eram jogos para São Paulo que aconteceriam nas noites de quarta-feira, sempre no mesmo horário em que a emissora carioca exibia uma partida que ela considerava mais importante. A Rede Record seguia o jogo da Rede Globo, normalmente envolvendo times cariocas. A Record SP ficava com a partida exclusiva.

Dentro de um levantamento inédito que mapeou mais de 1,3 mil jogos transmitidos pela TV aberta em São Paulo no Brasileirão desde 1987, o Blog do Allan Simon conseguiu isolar quantas e quais foram essas partidas que a Globo liberou para a Record. Quem viveu aqueles tempos se lembra, mas nada como uma planilha onde o resultado é claro: o Santos foi o “rei” dos jogos exclusivos na emissora paulista.

Como foram distribuídos ano a ano os jogos da Record

Entre 2002 e 2006, a Record SP teve o direito de transmitir com exclusividade 42 partidas do Brasileirão. Foram seis jogos no primeiro ano (o que inclui até um dos mata-matas entre Santos e São Paulo, quando a Globo SP preferiu transmitir o duelo entre Atlético-MG e Corinthians no mesmo domingo), um número mais baixo que tem explicação.

Naquela temporada a própria Globo ficou sem exibir jogos às quartas-feiras na primeira fase por causa da propaganda eleitoral gratuita, já que em 2002 houve eleições para presidente, governadores, senadores e deputados em todo o país. A emissora carioca decidiu não ter futebol em sua grade modificada na maioria das quartas-feiras, e também barrou a Record, que ficava com alguns VTs após o fim das partidas.

Voltando ao cenário, no primeiro ano dos pontos corridos (2003) foram oito jogos exclusivos na Record SP. Todos do Santos. Em 2004, essa quantidade subiu para 14, sendo 11 do time da Vila Belmiro, um do Palmeiras e dois do São Paulo. Esse jogo do time alviverde, inclusive, aconteceu porque a rodada toda foi movida para uma terça-feira, dia 13 de julho, em razão da Copa América. A Globo não quis transmitir, mas liberou a parceira. Aquele ano foi o auge da Record na exclusividade para o público paulista.

Em 2005, uma queda vertiginosa devolveu a emissora de Edir Macedo ao patamar do ano anterior: foram apenas oito jogos exclusivos, sendo quatro do Santos, três do São Paulo e um do Palmeiras.

Coincidência histórica fez Record ter jogo exclusivo do Corinthians

No último ano da parceria, em 2006, foram apenas seis jogos exclusivos: um do Corinthians e cinco do Santos. Esse do time do Parque São Jorge foi o único na história da Record no Brasileirão em SP e tem um motivo especial para ter acontecido.

A Globo provavelmente não teria deixado essa partida contra o Fluminense no dia 16 de agosto, uma quarta-feira à noite, exclusiva da concorrente se naquele dia não houvesse simplesmente a disputa da final da Libertadores de 2006 entre dois times brasileiros.

Internacional e São Paulo decidiram o título continental no Beira-Rio, com empate em 2 a 2 e troféu nas mãos do time colorado pela primeira vez. E não foi apenas isso. No Rio de Janeiro, que não entra na nossa conta aqui no post, a Record “herdou” a exclusividade de Figueirense x Flamengo, também realizado em simultâneo com a decisão internacional.

Esse cenário todo gerou inclusive uma situação bizarra nas transmissões da Globo na Libertadores. O RJ viu o jogo com a narração de Luis Roberto para que a emissora pudesse dividir atenções com o jogo do rubro-negro. Outra parte viu com Cléber Machado. Mesmas imagens, equipes diferentes para atender a públicos específicos.

O fim e o resumo do domínio do Santos na Record

O ano de 2006 marcou o fim da parceria. A Record já não se interessava mais pelo modelo que rendia pouca audiência na comparação com o SBT. A emissora vivia o auge do projeto “A Caminho da Liderança”, e cada ponto no Ibope era importante para vencer a empresa de Silvio Santos. A reclamação era óbvia: não valia a pena pagar pelos direitos sublicenciados e transmitir apenas o que a Globo mandava, no horário que a Globo queria, do jeito que a Globo cobrava.

A Record terminou sua passagem de cinco temporadas pelo Brasileirão com um saldo de 42 jogos exclusivos, sendo 33 do Santos. O Peixe representou 78,6% do total de transmissões que o “canal 7” fez sozinha entre 2002 e 2006 na competição. O São Paulo teve seis jogos, o Palmeiras ficou com dois (mas teve vários outros em 2003 quando disputou a Série B, que também não entra nessa conta), e o Corinthians apenas um.

Santos também dominou exclusivos da Band depois

A partir de 2007 e até 2015, foi a vez da Band assumir o papel de parceira da Globo. Para a emissora do Morumbi valia muito mais a pena, pois as audiências do futebol eram maiores que a grade regular, diferentemente da Record. Nesse período, foram apenas 21 jogos exclusivos na Bandeirantes em SP, também com amplo domínio santista. Foram 15 partidas (71,4% do total), contra cinco do Palmeiras e um do São Paulo. Do Corinthians, claro, nenhum, já que não houve mais a coincidência histórica de uma final de Libertadores com dois brasileiros no mesmo horário.

Parcerias ajudaram muito a exposição do Santos

Se dependesse só da Globo, o Santos teria tido 48 jogos a menos transmitidos na TV aberta em São Paulo desde 2002. As partidas exibidas com exclusividade por Record e Band representam mais de 31% dos 152 jogos que o Peixe teve no sinal aberto da região metropolitana de SP daquele ano até o fim do Brasileirão 2018.

Sobre a pesquisa

Este levantamento foi realizado com base nas informações contidas em tabelas da CBF, consultas aos arquivos dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, da revista Placar e do site Papo de Bola, às tabelas do UOL Esporte no final da década de 1990, tudo isso com confirmação de dúvidas que surgiram durante a apuração também por meio de vídeos das transmissões e chamadas disponíveis no YouTube, além de um reforço de checagem nos acervos dos jornais O Globo (RJ) e Correio do Povo (RS) para que não houvesse nenhuma data pendente de exibições em todo o país nas emissoras que tiveram os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro entre 1987 e 2018. Fazemos também um agradecimento ao jornalista Rafael Alaby, do Torcedores.com, que contribuiu com a pesquisa em algumas edições da era dos pontos corridos.

Não estão consideradas as exibições de jogos diferentes nas mesmas datas nas emissoras afiliadas da Globo no estado de São Paulo, pois são transmissões muito regionalizadas que recortam demais o público consumidor. Foram catalogadas 1354 exibições de partidas do Brasileirão nesse período nos canais Globo, Manchete, Record, Bandeirantes e SBT (em duas partidas no Brasileiro de 1987, num acordo com a CBF).

Só não foi possível determinar as transmissões de três jogos na Copa União de 1987, quando a Rede Globo fazia sorteios com 15 minutos de antecedência para definir quais partidas seriam exibidas aos domingos, e se uma partida foi ou não transmitida no dia 28 de março de 1992, quando o jogo previsto para exibição, Sport x São Paulo, foi adiado por causa de chuvas. Ou seja, foram para as contas finais os dados de 1350 partidas que tiveram sua transmissão confirmada pela pesquisa. Se, nos próximos tempos, forem confirmados os dados das quatro datas-exibições que ficaram faltando, faremos as atualizações dos rankings.

Podem haver eventuais e raras discrepâncias com a realidade em casos nos quais as emissoras anunciaram fechamento de sinal para São Paulo em jogos realizados na Capital, mas acabaram liberando a exibição em cima da hora em comum acordo com os clubes, prática vista algumas poucas vezes nos anos 1980 e 1990. No entanto, isso representa parcela mínima no total de datas e jogos apurados neste levantamento.

Este estudo não tem a intenção de comparar as audiências dos jogos do Brasileirão, pois lidamos com um período muito amplo, entre 1987 e 2018, com profundas mudanças no consumo e nos hábitos do povo brasileiro, como a entrada da TV por assinatura, pay-per-view, e a própria dificuldade de coleta de dados confiáveis de cada jogo individualmente nos últimos 32 anos.

É importante esclarecer que não foram considerados os jogos do Módulo Amarelo da Copa União de 1987 transmitidos pelo SBT, apenas os dois duelos finais entre Guarani e Sport que valeram o título de campeão brasileiro daquela temporada, de acordo com decisão da CBF e da Justiça brasileira. Da mesma maneira, foram excluídos do levantamento eventuais transmissões em TV aberta do Módulo Amarelo da Copa João Havelange de 2000, bem como dos jogos da Seletiva para a Libertadores, disputada em 1999 com os times eliminados do Brasileirão, mas não sendo parte oficial da competição.

Também vale lembrar que a conta considera número de jogos que tenham sido exibidos em TV aberta. Partidas que foram transmitidas por mais de um canal não contaram mais de uma vez no levantamento.

Os dados são de uma primeira fase das pesquisas, que poderão no futuro incluir jogos transmitidos pela TV aberta no Rio de Janeiro e também os que foram exibidos de forma regionalizada em algumas partes do Brasil.

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