A Copa do Mundo de 1994 terminou há exatamente 25 anos, quando Roberto Baggio isolou a última cobrança italiana na disputa por pênaltis e deu ao Brasil o título de primeiro tetracampeão do mundo. Aquela partida foi exibida por três emissoras diferentes na TV aberta brasileira, um cenário comum na época, mas estranho para quem viveu três Copas exclusivas da Globo nesta mídia no século 21 (2002, 2006 e 2018).

Globo, SBT e Band compraram os direitos de transmissão. Cada uma tinha que pagar uma taxa de 3 milhões de dólares à OTI (Organização da Televisão Ibero-Americana, na sigla original), detentora da Copa do Mundo e responsável pela distribuição desses contratos na América do Sul, América Central, México, Portugal e Espanha. A Rede Manchete ficou fora porque não conseguiu arcar com todas as parcelas do acordo, já vivendo a crise que levaria à falência e ao seu encerramento em 1999 (mas conseguindo transmitir a Copa de 1998 antes disso).

A grande novidade era a chegada da Globosat, serviço de TV por assinatura que existia desde 1991, e pela primeira vez faria uma Copa do Mundo. Mas a operação era muito nova, e os jogos nem foram transmitidos ao vivo. O SporTV, nome que o canal de esportes da programadora tinha ganhado em 1994 para substituir o original “Top Sport”, exibiu as principais partidas no horário das 21h30 em VTs. Outros jogos entravam na grade em horários também alternativos, sempre em gravação.

Na briga pelo Ibope da TV aberta, a Rede Globo, é claro, levou a melhor. Mas a concorrência de Band e SBT fizeram com que os números fossem menos dominantes. Na final, por exemplo, a emissora marcou 53 pontos no Ibope em São Paulo, de acordo com dados publicados pelo jornal Folha de S.Paulo no dia 21 de agosto de 1994.

Para se ter uma ideia, foi apenas a terceira maior audiência da Globo na semana de 11 a 17 de julho. Os mesmos 53 pontos, mas com algum percentual maior nos decimais, botaram o Jornal Nacional na segunda posição. E a novela Fera Ferida, que teve seu último capítulo exibido apenas um dia antes da final da Copa do Mundo, marcou entre 61 e 62 pontos no Ibope em SP.

Isso não quer dizer, porém, que a novela foi mais assistida que o jogo que deu o tetra ao Brasil. É que a Band conseguiu fazer 14 pontos de audiência entre os paulistas com a sua transmissão da vitória brasileira sobre os italianos, também de acordo com números do Ibope publicados pela Folha em agosto. Não há, no entanto, os registros do Ibope do SBT naquela final. É que apenas apareciam no ranking dos jornais os cinco maiores índices de audiência de cada canal.

Ou seja, podemos afirmar que a transmissão da decisão deu menos audiência ao canal de Silvio Santos que o quinto colocado no ranking do SBT na semana entre 11 e 17 de julho. Foi o Sabadão Sertanejo, de Gugu, com 11 pontos, mesmo índice de Chaves, e atrás de dois capítulos da novela Éramos Seis e do humorístico A Praça é Nossa. A novela marcou 14 pontos.

Em setembro, a Rede Globo fez um anúncio publicado em diversos jornais para comemorar a liderança na Copa do Mundo. O Blog do Allan Simon consultou os arquivos do jornal O Globo e encontrou os dados do Ibope divulgados pela emissora sobre a audiência média dos sete jogos do Brasil naquele Mundial.

Considerando a média dos duelos do Brasil contra Rússia (2 a 0), Camarões (3 a 0), Suécia (1 a 1), Estados Unidos (1 a 0), Holanda (3 a 2), Suécia de novo (1 a 0) e Itália (0 a 0 e 3 a 2 nos pênaltis), a Globo divulgou ter feito 47 pontos com a seleção brasileira em São Paulo. Na propaganda, aparece a “Emissora A”, com 15 pontos, e a “Emissora B”, com nove.

De acordo com consultas feitas por este blog a outros materiais publicados nos principais jornais do país naquela cobertura, a “Emissora A” é a Band, e a “Emissora B”, é o SBT, mostrando que não foi apenas a final que deu ampla vitória ao canal do Morumbi na briga contra a TV de Silvio Santos pela vice-liderança da Copa.

O anúncio também trazia a audiência do Rio de Janeiro. A Globo fez 54 pontos no Ibope entre os cariocas, contra seis da segunda colocada, e quatro da terceira. Não foi possível identificar com certeza qual das duas é a Band ou o SBT, mas a lógica leva a crer que foi reproduzida a ordem da audiência paulista.

De qualquer forma, o que podemos cravar é: os jogos da seleção brasileira fizeram média de 71 pontos no Ibope em São Paulo, além de 64 pontos no Rio de Janeiro. Essa é a soma das audiências médias de Globo, SBT e Band nas transmissões dos sete duelos que levaram o Brasil ao tetracampeonato.

Em 2002, oito anos depois, quando o Brasil levou o penta, a crise econômica que assolou o país em 1999 com a desvalorização do real frente ao dólar acabou fazendo com que as outras emissoras não tivessem interesse em pagar caro para licenciar os direitos de transmissão da Copa do Mundo disputada na Coreia do Sul e no Japão. Desta vez, a Globo era a dona e senhora das exibições do maior torneio de futebol do mundo.

Sozinha, a Globo fez 67 pontos no Ibope em São Paulo com a transmissão de Brasil 2 x 0 Alemanha no dia 30 de junho de 2002, quando Ronaldo marcou os dois gols que deram ao time comandado por Luiz Felipe Scolari o quinto título mundial. Naquela ocasião, já existiam as transmissões ao vivo do SporTV.

O valor de um ponto no Ibope muda a cada ano, mas sempre no intuito de manter a representatividade de acordo com o tamanho da população e a quantidade de domicílios com TV. Ou seja, é possível a comparação em épocas diferentes.

Na Copa do Mundo de 2018, já vivendo a concorrência com uma TV paga mais forte e base ampla de assinantes, a Globo teve a exclusividade total na TV aberta, já que a Band, em crise, não topou pagar o sublicenciamento dos direitos, como havia feito em 2010 e 2014. Com os cinco jogos do Brasil até a eliminação nas quartas de final, diante da Bélgica, a emissora registrou 56 pontos de média no Ibope em SP.

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