No dia 12 de dezembro de 2018, o Athletico Paranaense venceu o Junior Barranquilla-COL nos pênaltis e faturou o primeiro título continental de sua história, a Copa Sul-Americana. A Globo transmitiu aquele jogo épico para os torcedores do Furacão que moravam no Paraná. SporTV e Fox Sports, com diferentes opções de narração e comentários, exibiram para todo o Brasil.

Menos de dois anos e meio depois, a Copa Sul-Americana não é mais o mesmo campeonato. Mudou de formato, tem uma interessante fase de grupos, conta com times de muita expressão e torcida, como Corinthians, Grêmio, Bahia, Ceará, Atlético-GO, e o próprio Athletico, além do promissor projeto do Red Bull Bragantino. Mas quem pode ver?

Se há tão pouco tempo tínhamos opções de TV aberta (embora não fosse suficiente, visto que o Brasil inteiro deveria ter tido acesso a uma final com time brasileiro de graça) e TV paga, hoje a Sul-Americana é um campeonato mais interessante, mas, ao mesmo tempo, um torneio fantasma.

Relegada a um PPV (pay-per-view) criado no ano passado pela Conmebol em parceria com a Band e as operadoras de TV por assinatura Claro e Sky, a Copa Sul-Americana já estava quase invisível desde o começo da temporada 2019 para boa parte dos brasileiros.

Problema da Copa Sul-Americana começou na licitação

Após uma licitação fracassada sem interessados, fruto da imaginação fértil de alguém na Conmebol de que a Copa Sul-Americana pudesse ser vendida a um preço altíssimo no Brasil tendo formato bizarro que poderia simplesmente eliminar todos os nossos representantes em dois jogos no primeiro mata-mata, a competição foi parar no DAZN.

Serviço de streaming recém-chegado ao país, o DAZN faz parte do Perform Group, que era sócio da IMG na venda dos direitos de transmissão da Libertadores e da Copa Sul-Americana para o período entre 2019 e 2022. Foi como se a empresa tivesse aproveitado a oportunidade para ficar com um produto que ninguém mais quis.

Os valores divulgados pelo UOL Esporte ao longo da cobertura das licitações esclarecem: o DAZN pagava US$ 35 milhões por ano para manter a Copa Sul-Americana totalmente exclusiva no Brasil. No fim de 2018, isso representava R$ 135 milhões por temporada. Difícil imaginar que Globo e Fox, que antes detinham os direitos de transmissão da competição, topariam pagar isso após terem que aumentar – e muito – os valores gastos na Libertadores.

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A Globo, que antes pagava US$ 12 milhões pelos direitos de TV aberta da Libertadores – e tinha parceria com a Fox pelos de TV por assinatura em troca de outras competições do SporTV, como a Copa do Brasil, highlights do Brasileirão, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos do Rio-2016 -, teve que passar a investir US$ 60 milhões por ano na competição continental mais importante do nosso futebol.

A Fox, que antes mandava e desmandava na Libertadores, assumiu um contrato de US$ 50 milhões que daria o direito à primeira escolha dos jogos de terça e quarta-feira, mas não teria mais controle sobre horários, datas, sublicenciamentos, nada. A conta ficou salgada. E sobrou para a Copa Sul-Americana.

A falta de noção da Conmebol, que poderia vender mais barato a sua competição secundária, ou pelo menos colocar alguns jogos como “brinde” em algum pacote da Libertadores, permitiu o sumiço do torneio. Bem que o DAZN ainda fez sua parte, colocando alguns jogos ao vivo na RedeTV! como forma de promoção do seu serviço de streaming que prometia ser a “Netflix do esporte”.

O duelo de volta da primeira fase em 2019, com Racing x Corinthians, fez a RedeTV! ver índices no Ibope que não alcançava desde os áureos tempos do “Pânico na TV”. Chegou a liderar a audiência durante a disputa de pênaltis, ocorrida após o término de um jogo do Palmeiras válido pelo Paulistão que a Globo transmitia no mesmo horário.

Mas não eram todos os jogos que apareciam no canal aberto. Pelo contrário, foram poucos – e a maioria em VT. A Sul-Americana já virava um “campeonato fantasma”. Mas, como só hoje podemos perceber, ainda haveria o que se valorizar. O DAZN era um serviço de streaming para o qual bastava uma assinatura e uma conexão eficiente de internet. Com muitas aspas no “bastava”, pois “só” isso já exclui a imensa maioria da população brasileira.

Crise piorou as coisas

Com a pandemia do coronavírus, veio também a disparada do dólar. Os R$ 135 milhões pagos pelo DAZN por temporada rapidamente se converteram em quase R$ 200 mi por temporada. Na Libertadores, a conta da Globo ficou quase R$ 100 mi mais salgada. Ambas optaram por rescindir seus contratos em atos polêmicos no mercado dos direitos de transmissão. A Conmebol ainda quer uma indenização na Justiça pelas perdas causadas pela saída da maior emissora do país de sua principal competição.

E aí? O que fazer? A Copa Sul-Americana continuou sem interessadas porque continuou absolutamente cara e ruim. A Conmebol ainda não havia oficializado o novo formato para 2021. Quem comprasse poderia pegar uma bomba. Em 2020, por exemplo, a maior parte dos times brasileiros caiu fora na primeira fase deste torneio. Na reta final, sobraram Bahia e Vasco. O São Paulo ainda entrou com a péssima campanha na fase de grupos da Libertadores. Nenhum deles foi sequer à semifinal.

A solução apresentada foi criar o tal PPV, o Conmebol TV. Que é uma aberração por si. Como pode um projeto contar com duas operadoras de televisão por assinatura, excluindo todas as demais? Do ponto de vista de acesso, estar na TV paga poderia significar uma qualidade melhor que o streaming do DAZN, mas não promover venda direta pela internet provocou efeito contrário: deixou ainda mais fantasma a Copa Sul-Americana.

Esse PPV, que custa R$ 39,90 por mês, um absurdo em tempos de crise econômica na maior crise sanitária do último século, juntou os pacotes “rejeitados”. Pegou os jogos que eram do SporTV na Libertadores, um pacote secundário em relação ao da Fox, sem sequer poder transmitir a final única ao vivo, e pegou o pacote completo do DAZN com Copa Sul-Americana e Recopa.

Sou extremamente contrário a pay-per-view em competições de tiro curto, a menos que seja para apenas reproduzir os mesmos jogos já exibidos na TV paga, como é o caso da participação atual do Premiere na Copa do Brasil. Nesse exemplo, o PPV da Globo acaba virando uma opção para quem não quer mais ter os caríssimos pacotes de TV por assinatura em casa para poder ter acesso aos jogos do SporTV. “Bastaria” assinar a versão streaming, o Premiere Play.

PPV em mata-mata curto é algo extremamente esquisito. Se no Brasileirão nós temos certeza de que haverá 38 jogos dos nossos times durante o ano, ninguém sabe ao certo quantas partidas serão realizadas com eles na Copa Sul-Americana, na Libertadores, na Copa do Brasil. Além disso, nas fases agudas o interesse se perde. Só algumas torcidas passam a se importar.

Enquanto no Campeonato Brasileiro a última rodada quase sempre chega com algo a definir, ainda que não seja o título, o PPV de outras competições vai se esvaindo. Quantos torcedores do Internacional, forçados a assinar o Conmebol TV para verem os duelos contra o Boca Juniors na Libertadores 2020, em dezembro, mantiveram o pacote no mês de janeiro com as semifinais?

E nisso, a Copa Sul-Americana foi ficando abandonada. Hoje, com uma overdose de futebol devido ao ridículo calendário brasileiro em tempos de pandemia, ela acaba se perdendo em meio a uma imensidão de jogos acontecendo durante a semana. Vale a pena?

Vale a pena ter uma competição reformulada completamente desaparecida para arrecadar com PPV? Será que não poderia ser mais eficiente colocar alguns jogos em TV aberta para dar mais alcance à Sul-Americana e divulgar o próprio produto, como o DAZN fazia com a RedeTV!?

Não é tão difícil: se a Band é parte do projeto, por que não colocar nela apenas um jogo por rodada, não precisa ser do principal produto que esse PPV tem em mãos, o Corinthians, para expandir o acesso à Sul-Americana e fazer muita propaganda do Conmebol TV, da Claro e da Sky?

A arrecadação tombaria tanto se isso acontecesse? Não compensaria aos patrocinadores da “CONMEBOL Sudamericana” aparecer em rede nacional em um canal aberto com plena tradição em esportes que vem conseguindo boas audiências com a Fórmula 1 e outros torneios adquiridos recentemente?

O que se diz é que não haveria interesse das operadoras, que querem porque querem vender seus pacotes e PPV. A notícia publicada no UOL Esporte pelo colunista Gabriel Vaquer recentemente indica que sequer algum canal, como o SBT, pode comprar os direitos de transmissão em TV aberta, pois eles já estão vendidos dentro do pacote adquirido pelo consórcio que opera o Conmebol TV.

Mas será que não poderia haver mais vendas e mais exposição com propaganda massiva e mais espaço para a Copa Sul-Americana em TV aberta? Vale mesmo a pena, em nome dessa arrecadação, fazer sumir um produto reformulado e com ótimo potencial futuro?

Essa é a pergunta que nos faremos até a próxima licitação, e talvez continuemos a nos fazer de 2023 a 2026 se a falta de noção com valores prevalecer de novo.