A “MP do Futebol”, como ficou conhecida a Medida Provisória 984/2020, trouxe de volta à tona o debate sobre o Brasileirão na TV. A mudança (ainda não definitiva) que faz agora o clube mandante ser o dono absoluto dos direitos de transmissão de uma partida de futebol gera possíveis cenários para clubes, emissoras e competições.

Um deles é a formação de uma liga. O outro é a individualização extrema nas negociações. Mais difícil, porém, é dizer qual seria o modelo ideal para o Brasileirão na TV considerando todos os pontos complexos do assunto no país.

Na opinião deste blog, o caminho melhor é sempre a coletivização, que facilita os negócios entre clubes e empresas de mídia e ainda tende a corrigir distanciamentos absurdos no lado financeiro, coisa que no Brasil foi agravada a partir do fim do Clube dos 13, em 2011.

Mas a formação de ligas não responderia totalmente a essa pergunta. É preciso discutir o modelo. Antes de “morrer”, o Clube dos 13 ainda tentou uma licitação praticamente inédita com envelopes fechados e venda separada por mídia dos direitos de transmissão do Brasileirão em um contrato que valeria entre 2012 e 2015. Como seria o processo de venda de forma coletiva agora?

Primeiramente, é preciso dizer que o Grupo Globo e a Turner possuem contratos válidos com todos os times grandes pelos direitos de transmissão da Série A até 2024.

Alguns não são completos. O Athletico Paranaense, por exemplo, não vendeu PPV. O Coritiba deve anunciar oficialmente em breve, segundo informou o UOL Esporte, um acordo com a Globo por TV aberta, tem contrato válido em TV por assinatura com a Turner, mas também segue sem acerto por pay-per-view.

Mas, via de regra, não há muito o que fazer antes de 2025. Ainda que a Turner venha a sair do Brasileirão por meio judicial, como também noticia o UOL Esporte hoje, o máximo que poderá acontecer é alguma empresa – inclusive a Globo – assumir os contratos que ficarão “órfãos”.

Pensando daqui a cinco anos, o processo de criação de uma liga precisa acontecer antes disso. O mais rápido possível, na verdade, respeitando, é claro, o momento difícil que a economia mundial vai viver por causa da pandemia. Ou seja, a agilidade precisa ser na formação de uma entidade representativa dos clubes, mas não é preciso haver pressa para vender esses direitos.

O Blog do Allan Simon apresenta agora algumas possibilidades que, em nossa opinião, melhorariam o sistema de venda dos direitos para clubes, empresas de mídia, e, principalmente, para o torcedor brasileiro. Confira:

– Brasileirão na TV aberta: uma necessidade

Esqueçam comparações com ligas europeias, onde o público tem mais facilidade de acesso a canais pagos, internet mais rápida e confiável, e países pequenos em extensão territorial. O Brasil é um “continente” e não funciona na mesma lógica.

O Brasileirão na TV aberta é necessário para manter o futebol acessível à maior parte da população. Os direitos de transmissão atualmente pertencem à Globo, que pode escolher três jogos por rodada. Normalmente os três são ao mesmo tempo. Exatamente por causa das características do nosso país.

Não é da cultura do eixo Rio-São Paulo, onde se concentram os interesses publicitários, ver jogos cruzados. O Flamengo é uma exceção recente com grandes audiências com jogos decisivos exibidos para o público paulista. Os outros bons desempenhos em SP são de jogos mata-mata. Dificilmente haveria bons índices de audiência de um jogo do Botafogo contra um time de outro estado exibido para os paulistas.

Da mesma forma, o índice no Ibope de um jogo do Santos provavelmente seria ruim no Rio de Janeiro sem ter um carioca do outro lado. É a nossa cultura. E a Globo sabe disso. Por essa razão, os jogos são concentrados. A emissora costuma transmitir um jogo para SP e parte da rede, outro para o RJ e outra parte da rede, e um terceiro atende a uma praça específica.

No ano passado, Minas Gerais recebeu dez jogos regionalizados dessa forma. O Ceará teve nove, Rio Grande do Sul assistiu a seis, Goiás e Bahia cinco (cada), Paraná, Santa Catarina e Pernambuco um (cada), e a região da Baixada Santista, por meio da TV Tribuna, teve três.

Parte da cota da TV Globo foi usada para exibir partidas de graça pela internet no Globoesporte.com. Sim, transmissões gratuitas pela internet são consideradas como “TV aberta”. É assim que o Facebook adquiriu esses direitos na Champions League e na Libertadores, por exemplo.

Não há como fugir muito disso. A Globo hoje não tem concorrentes no mercado de TV aberta com condições de disputar os direitos. O valor pago pela emissora atualmente é de R$ 600 milhões por ano exclusivamente por esta mídia.

Qualquer cenário que venha a dividir em “pacotes” de transmissões para possibilitar a mais de uma emissora a compra desses direitos numa licitação de envelope fechado precisa considerar:

– Manter ou aumentar esse valor de R$ 600 milhões
– Transmissão nacional de jogos que nem sempre vão interessar a todo o país
– Possibilidade de empresas de internet, como o Facebook, ficarem com os direitos

A Libertadores conseguiu arrecadar bem mais com um modelo assim no todo, incluindo TV por assinatura. Mas a Globo deu sorte no primeiro ano por ter no Flamengo um fenômeno de rendimento em campo que atraiu a atenção do país todo. A emissora ficou sem Palmeiras x Grêmio no mata-mata da competição justamente porque só poderia escolher uma partida com transmissão nacional.

No Brasileirão de pontos corridos, onde as coisas acontecem de forma menos emocionante e espalhadas ao longo de sete meses, não seria fácil aliar o alto custo dos direitos de transmissão a bons números de audiência nas duas principais praças do país mostrando jogos que nem sempre vão interessar a ambas.

Poderia até ser considerado um modelo que divida os direitos de TV aberta em dois pacotes. Exemplificamos a seguir:

– Pacote principal, lance mínimo de R$ 400 milhões por temporada, com dois jogos por rodada, podendo ser simultâneos e com rede dividida; Prioridade na escolha dos jogos nas rodadas “pares”*.

– Pacote secundário, lance mínimo de R$ 200 milhões por temporada, com um jogo por rodada, com dia e horário a combinar com a empresa vencedora; Escolha do jogo sempre após a vencedora do principal.

Esse modelo, se aplicado, permitiria à Globo ganhar os dois pacotes e manter tudo como está em TV aberta, ou, se fosse o caso, ter outra emissora entrando na parada com um lance menor, mais “possível” ao cenário econômico de hoje, e com a certeza de um jogo exclusivo na mídia aberta por rodada sem a concorrência da maior emissora do país, podendo fugir do domingo às 16h e da quarta às 21h30.

Da mesma forma, permitiria à Globo comprar esses direitos para o Globoesporte.com. O Facebook também poderia concorrer.

* Para evitar a escolha contínua de um mesmo clube, esvaziando o PPV, nas rodadas ímpares a empresa gestora do pay-per-view teria o direito de escolher dois jogos exclusivos antes da TV aberta.

– Brasileirão na TV paga: de olho no futuro

O cenário de TV por assinatura no Brasil é ruim, a base de assinantes tem caído nos últimos anos devido a uma combinação de fatores como desemprego, queda da renda média, e também a pirataria do sinal dos canais pagos. É difícil apontar um futuro promissor para esta mídia.

O Brasileirão na TV por assinatura hoje é um produto ruim. Se não fosse a Turner ter entrado na parada com jogos do Palmeiras, Santos, Internacional, Athletico, Bahia, clássicos entre Fortaleza e Ceará, a competição estaria condenada à terceira escolha que claramente o SporTV representou nos últimos anos dentro do Grupo Globo.

O foco tem sido na TV aberta e na exclusividade de jogos do Flamengo e do Corinthians no PPV. A dupla teve, cada um, apenas um jogo exibido pelo SporTV no Brasileirão 2019. Em ambos os casos, quando o campeonato já estava na reta final.  O Rubro-Negro inclusive já era campeão quando apareceu no canal.

Não dá para depositar esperanças na TV paga. A própria crise da Turner, que fechou o Esporte Interativo antes mesmo de começar a transmitir o Brasileirão, e agora briga com os clubes em um caminho que parece rumo à rescisão, mostra isso.

O Brasileirão na TV paga a partir de 2025 precisaria ser maior e menor. Menos jogos, melhor qualidade.

O preço atual é algo entre R$ 500 milhões (valor pago pelo SporTV caso todos os clubes fossem dele) e R$ 550 milhões (valor máximo já divulgado pelo acordo com a Turner se todos os 20 times fechassem com ela).

No modelo futuro, a TV paga precisa ter a escolha prioritária dos jogos antes do PPV. A valor pago é alto demais para a qualidade das partidas que são exibidas. O SporTV, em 2019, foi o canal dos rebaixados. Dos quatro times que mais apareceram na emissora paga do Grupo Globo, só o Goiás não caiu. Avaí, CSA e Chapecoense deram adeus.

Um modelo que poderia funcionar é a divisão em dois pacotes com prioridade 3 de escolha, ou seja, após as vencedoras dos pacotes de TV aberta.

Cada pacote teria lance mínimo de R$ 200 milhões. Sim, uma bela queda no valor atual. Mas porque no ano passado essa mídia exibiu 102 jogos. No caso, seriam apenas 76.

– Pacote principal, com um jogo na quinta às 20h30 (rodadas de meio de semana) ou no sábado às 19h (rodadas de fim de semana), direito de preferência na escolha após a TV aberta.

– Pacote secundário, com um jogo na quarta às 19h30 (meio de semana) ou no domingo às 19h (fim de semana), direito de preferência na escolha após a vencedora do pacote principal.

Importante: para funcionar um pacote menor com redução de apenas R$ 100 milhões, é fundamental o fim do bloqueio de praça. Os jogos poderiam ser exibidos para onde são realizados.

A Globo, novamente, poderia investir alto e levar os dois pacotes, ficando com a exclusividade para o SporTV e eventualmente até escolhendo jogos “ruins” para beneficiar o PPV. Tudo poderia ficar do jeito que está.

Mas haveria a chance de uma empresa como a Disney, por exemplo, pagar pouco mais de R$ 200 milhões por ano garantindo 38 bons jogos com transmissão nacional. A TV paga poderia deixar de ser o reino da zona do rebaixamento.

– Brasileirão no PPV: onde a grana vai entrar

Aqui é onde a fonte de dinheiro mais promete. Pay-per-view é sinônimo de Premiere porque só assim ele foi vendido desde 1997 no Brasil. Mas o formato “contrate uma operadora de TV, tenha um pacote de canais e ainda por cima pague o Premiere” está morrendo.

O Premiere Play já é uma bela sinalização do Grupo Globo para esse futuro de streaming e venda direta.

Nos exemplos que citamos, o acesso aos jogos do Brasileirão na TV já foi  feito da seguinte forma: três jogos foram para TV aberta, dois para TV paga, e sobraram cinco partidas completamente exclusivas. Sem falar que duas das partidas em sinal aberto seriam simultâneas.

Ou seja, numa rodada em que a Globo, por exemplo, transmitisse São Paulo x Vasco para o RJ e Flamengo x Palmeiras para SP, o jogo do Tricolor seria exclusivo do PPV para os paulistas, e o duelo do Rubro-Negro também ficaria só nessa mídia para os cariocas. A exclusividade chegaria a seis jogos por rodada.

O valor pago precisaria ser consideravelmente aumentado. O lance mínimo precisaria sair dos R$ 650 milhões para algo entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão por ano.

O Blog do Rodrigo Mattos, também no UOL Esporte, informou no ano passado que o total estimado de arrecadação com o Brasileirão naquela edição era de R$ 1,7 bilhão com as assinaturas. E que R$ 1,050 bilhão ficava para o Grupo Globo, enquanto o restante seria distribuído entre os clubes, apenas R$ 650 milhões.

É preciso mudar isso. Com o papel cada vez menor das operadoras de TV paga intermediando o negócio, não haverá mais desculpa para tamanha discrepância, ainda que os custos de transmissão sejam bem altos.

Concorrência pressupõe redução de preços também. Outras empresas poderiam disputar com o Premiere e oferecer produtos bons com custos menores, aumentando, assim, suas margens de lucro sem que os clubes paguem o preço. Se ninguém quisesse pagar, a liga assumiria o comando, contrataria empresas para as transmissões e faria um sistema próprio de PPV.

Quem vencesse a licitação para ficar com a gestão do PPV poderia escolher em rodadas ímpares dois jogos exclusivos que não seriam exibidos nem em TV aberta, nem em TV paga. Nas rodadas pares, a escolha prioritária seria da TV aberta. Dessa forma, nenhuma das duas mídias poderia se apoderar do Flamengo e do Corinthians, por exemplo.

A liga de clubes poderia arrecadar, só com lances mínimos, R$ 1,8 bilhão por ano. A concorrência mais “possível” a outras empresas certamente elevaria o preço. A distribuição do bolo todo deveria ser no formato adotado atualmente, mas com mudanças.

Os 40% igualitários renderiam uma cota de R$ 36 milhões por clube no Brasileirão. Ninguém receberia menos que isso. A partir daí, a faixa de 30% com premiação de acordo com a classificação também seria mantida.

O último bolo, com 30%, precisaria respeitar uma fórmula que aliasse a audiência da TV aberta, da TV paga, e o percentual dos torcedores que comprariam o PPV. Isso, claro, mediante cadastro de todos os assinantes com a informação de qual é o clube do coração.

O modelo de licitação parao Brasileirão na TV proposto por este blog é apenas um exercício de imaginação, claro, ainda mais em 2020. E está aberto a críticas, opiniões, comentários. O que queremos é discussão. Não há verdade absoluta.

CONHEÇA NOSSO NOVO CANAL NO YOUTUBE

LEIA MAIS
– Análise: Globo terá que incentivar liga de clubes se MP do Futebol virar lei
– SBT x Globo: a briga histórica que marcou o Paulistão 2003
– Análise: Fusão entre ESPN e Fox Sports é uma boa para o mercado?
– 50 anos do Tri: Como a Copa do Mundo de 1970 chegou aos brasileiros pela TV
– Palmeiras x Corinthians, 1993: Quanto custavam ingressos e prêmios dos clubes
–  Como eram os estádios de São Paulo há 62 anos por imagens de satélite  
– Quanto valiam os patrocínios dos clubes no Brasileirão 1994 em dinheiro de hoje?